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75º Festival de Cinema de Cannes anuncia seleção

A lista anunciada para a competição do 75º Festival de Cinema de Cannes anunciada hoje é aquele tradicional encontro com velhos conhecidos, renomados vencedores da Palma de Ouro tentando nova consagração e uma pequena parte de novidades ou algo que o valha, tais como cineastas emergentes que chegaram há pouco a algo parecido como essa festa estranha com gente esquisita. A cara final é a mesma, eles não podem se desapegar do tapete vermelho que veteranos trazem, seu pedigree indisfarçável, e nem podem negar uma tentativa de renovação que se faz premente.

O filme de abertura, também fora de competição, foi uma espécie de choque coletivo. Z, nova produção dirigida por Michel Hazanavicius, marca a volta a Cannes do vencedor do Oscar por O Artista, que passou pela competição pela última vez justamente com esse título, saindo daqui para a consagração mundial. Esse longa de abertura, um remake de uma produção japonesa chamada Plano-Sequência dos Mortos, é uma nova investida na mesma seara poucos anos depois de Os Mortos não Morrem, de Jim Jarmusch, abrir o mesmo festival. Falta de imaginação ou falta de opção?

Foram confirmados fora da competição títulos muito aguardados pela cinefilia, como o mais que adiado Top Gun: Maverick, onde o delegado principal curatorial Thierry Fremaux disse que funcionaria também como uma espécie de homenagem a carreira de Tom Cruise, além de Elvis, cinebiografia assinada por Baz Luhrmann sobre um dos maiores astros da música da História co-protagonizada por outro Tom, o Hanks. Ou seja, é Cannes fazendo o de sempre – entupindo seu entorno de motivos suficientes para que flashes dos fotógrafos sejam espoucados com violência. Além disso, ainda teremos o filme novo de George Miller, Three Thousand Years of Longing, estrelado por Tilda Swinton e Idris Elba, trazendo de volta a Cannes o mestre por trás de Mad Max: Estrada da Fúria.

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Dos já previamente vencedores do prêmio máximo, temos o retorno dos irmãos Dardenne (de Rosetta e A Criança), que nunca faltam ao ter filme novo há mais de 20 anos, e esse ano voltam a falar sobre imigração africana em Tori et Lokita. Temos o passeio pela Coreia do Sul do mais recente vencedor da Palma a retornar, o japonês Hirokazu Kore-Eda (de Assunto de Família) com Broker, um filme aparentemente leve estrelado pelo astro de Parasita, Song Kang-Ho. Temos a volta do sempre impressionante Christian Mungiu (de 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias) com RMN, igualmente lidando com aspectos da xenofobia como os belgas. E temos o sueco Ruben Östlund (de The Square) com o aguardado Triangle of Sadness, já prometido há tanto tempo, e é mais uma comédia aguda e cheia de ácido vinda dele.

Do grupo dos veteranos que Cannes nunca reconheceu a contento talvez o maior seja David Cronenberg. O canadense está vivendo o octogésimo ano de vida e lança seu primeiro filme em oito anos, Crimes of the Future, estrelado pelo habitual Viggo Mortensen e as estrelas Kristen Stewart e Lea Seydoux. Claire Denis, talvez a maior cineasta viva, vem para a competição oficial pela primeira vez desde sua estreia no cinema, em 1988, com Chocolate; Stars at Noon é protagonizado por Margaret Qualley. James Gray é um freguês de Cannes, e embora sempre esteja cotado, nunca saiu do festival com um prêmio sequer; seu novo título, Armageddon Times é produzido pelo nosso Rodrigo Teixeira, e estrelado por Anthony Hopkins, Anne Hathaway, Cate Blanchett, Oscar Issac, Robert DeNiro e Jeremy Strong – esse tapete vermelho está sozinho. E temos Park Chan-Wook, o homem que deveria ter ganho uma Palma por Oldboy, e agora tenta mais uma vez essa glória máxima, com Decision to Leave.

Do grupo ascendente, temos Lukas Dhont, o belga que encantou Cannes com Girl, dessa vez na competição oficial, com Close. O russo Kiril Serebrenikov, na competição pela terceira vez, apresenta uma aparente narrativa clássica em Tchaikovsky’s Wife, sobre o grande compositor e sua esposa. Ali Abassi, de origem iraniana-sueca, apareceu com estardalhaço fora da competição com Border e agora retorna com Holy Spider, e uma sinopse explosiva envolvendo violência e religião. Na primeira vez em competição, Kelly Reichardt não é necessariamente uma promessa, tendo em vista que já cumpriu tudo (com First Cow, por exemplo), mas para Cannes, uma das melhores cineastas americanas dos últimos 15 anos só chega agora com Showing Up, trazendo sua atriz-fetiche Michelle Williams para a Croisette.

A lista do júri e da presidência do mesmo ainda não foi divulgada, assim como essa competição de 18 títulos claramente ainda será completa. Ou seja, nos próximos dias teremos novidades a pipocar na parte da organização, a trazer mais ansiedade para a comunidade cinéfila. Depois de cogitarem Nicole Kidman, Marion Cotillard (e essa nem poderia mais, já que seu Frère et Soeur estará em competição) e Penelope Cruz para a função, a função continua um mistério, e indefinida. O nome de Asghar Fahradi ganhou força nos últimos dias, mas há um consenso de que não é o momento pra expor o cineasta, envolvido em um processo que inclui plágio e outros escândalos, muito menos lançar uma sombra sobre o festival com essa mídia. Da parte do site, torceríamos para uma presidência feminina, e seria lindo que nomes como os de Frances McDormand, Tilda Swinton, Helen Mirren ou Gong Li pudessem ser anunciados, e confirmados, encabeçando o grupo.

Das duas notas amargas que marcam essa seleção, uma é até meio óbvia: Berlim oferece factual paridade de gênero em sua competição, e Veneza tenta elevar seu número, enquanto Cannes segue nessa toada de três títulos dirigidos por mulher em competição, e ao fim das edições, geralmente descobrimos produções dirigidas por cineastas que estavam em outras seções e saíram aclamadas. Porque não vão parar na Oficial? A outra nota é a ausência absoluta de latino-americanos no anúncio de hoje – da América Central ao menos temos a Costa Rica. O que falta, além da percepção da incorreção e da falta de tentativa mínima de exercer igualdade à seleção?

O Cenas de Cinema estará em Cannes esse ano, com uma cobertura especial do crítico, curador e programador Eduardo Valente, que vai trazer para o nosso leitor suas opiniões muito velozes e cheias da experiência de mais de 20 anos cobrindo o evento.

Abaixo, os selecionados – até o momento – para a competição oficial do 75º Festival de Cinema de Cannes:

“Armageddon Time,” de James Gray (EUA);
“Boy From Heaven,” de Tarik Saleh (Suécia);
“Broker,” de Kore-eda Hirokazu (Japão);
“Frère et Sœur,” de Arnaud Desplechin (França);
“Close,” de Lucas Dhont (Bélgica);
“Crimes of the Future,” de David Cronenberg (Canadá);
“Haeojil Gyeolsim,” de Park Chan-Wook (Coreia do Sul);
“Hi-Han,” de Jerzy Skolimowski (Polônia);
“Les Amandiers,” de Valeria Bruni Tedeschi (França);
“Holy Spider,” Ali Abbasi (Irã);
“Leila’s Brothers,” de Saeed Roustaee (Irã);
“Nostalgia,” de Mario Martone (Itália);
“RMN,” de Cristian Mungiu (Romênia);
“Showing Up,” de Kelly Reichardt (EUA);
“Stars at Noon,” de Claire Denis (França);
“Tchaïkovski’s Wife,” de Kirill Serebrennikov (Rússia);
“Tori et Lokita,” de Jean-Pierre e Luc Dardenne (Bélgica);
“Triangle of Sadness,” de Ruben Östlund (Suécia)

[75º Festival de Cinema de Cannes]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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