- Gênero: Drama
- Direção: Oliver Hermanus
- Roteiro: Kazuo Ishiguro
- Duração: 100 minutos
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Os créditos clássicos de Living nos transporta automaticamente para outro tempo do cinema. Passada em 1955, a ação do longa também está na forma como ele se apresenta para o espectador, com imagens de arquivo da Inglaterra daquele período, com os intertítulos próprios da era de ouro. Não estamos em 2022, mas há 70 anos atrás, com os moldes e costumes de outro período, com uma mentalidade que talvez já não exista – ou exista, vide o retrocesso que o conservadorismo acarretou ao mundo hoje. Entrar nesse lugar que o filme permite ao espectador, também é entrar em um universo que respeita o passado e se solidariza não com a postura de um tempo, mas com os sonhos e a delicadeza do mesmo, essa sim não mais existente.
Oliver Hermanus é um diretor sul-africano estreando fora de sua terra natal já com muito prestígio; seu Beleza ganhou a Queer Palm no Festival de Cannes de 2011, e ele lançou o também elogiado Moffie há três anos. Aqui, se afasta da temática LGBTQIA+ para alcançar um outro lugar de emudecimento social, uma sociedade castradora de sonhos, que impede a realização do que nos é essencial para viver. Nesse sentido, sim, as obras de Hermanus acabam por se comunicar de maneira mais complementar, já que seus personagens estão sempre em lugares de contenção e repressão. Seja em que esfera for, são homens retraídos de seus lugares de completude, dispostos a abrir mão de seus confortos em busca do que os torna mais dignos.
Como se sabe, Living é um remake de Viver, um dos incontáveis clássicos de Akira Kurosawa, onde a transposição parece muito óbvia. Aqui escrito pelo vencedor do Nobel Kazuo Ishiguro, autor também de Vestígios do Dia, que se transformou num filme que é quase uma moldura para a história que assistimos, não poderia haver maior comunicação com a sociedade japonesa do período do que a britânica. Seu rigor excessivo e sua extensa demonstração de frieza e labor são a representação exata do que esses mundos poderiam realizar de mais aproximado de suas realidades. São universos pragmáticos, onde o lugar do homem está no que ele faz enquanto profissional, com um pequeno espaço para o emocional entrar. Não é à toa que a liberdade, aqui, é representada principalmente por uma personagem feminina.
O que impressiona esteticamente em uma produção como Living é justamente ela não ser exclusivamente um veículo para uma única questão. O trabalho de Hermanus enfatiza essa característica marcante relacionada ao trabalho em sua materialização corporal. São homens automatizados, em seu figurino, gestos e organização social; sua representação é a mais próxima possível de um grupo de robôs programados exclusivamente para sua função no mercado de trabalho. Sujeitos identificados graficamente pela repetição, em imagens que remontam a clausura de uma cela, onde o trabalho não os transforma, mas sim aprisiona e delimita. Não há um outro lugar no espaço onde habite o sonho, soterrado pela obrigação, pelo prover; é nesse cenário que se encontra o sr. Williams, nos instantes finais de uma existência que castrou o que faria dele único.
A forma como Hermanus representa esses espaços e a movimentação de seus sujeitos está ligada ao universo matemático, no qual trabalham seus personagens. São limites impostos pela geometria, milimetricamente desenhados em suas construções cênicas – cada quadro é montado com suas linhas estéticas demarcadas em seu quadro. Living exibe uma potência na criação dessas imagens, porque elas elaboram esteticamente o universo que o roteiro apresenta verbalmente. Um modelo gráfico da prisão conceitual onde vivem esses homens represados, que no momento do passamento encontram motivos para romper com a imagem, a sua particular e a que remonta a estética da própria produção.
Todo o trabalho de Jamie Ramsay na fotografia é constituído da precisão citada acima, onde a luz muito chapada e artificial, conjuntamente a movimentação de câmera pouco orgânica, dá vez a uma liberdade de criação a partir do chute que seu protagonista golpeia sua rotina. Nesse momento, entram luz e sombras, entram o sol e a possibilidade de uma criação mais naturalista, ao mesmo tempo dando espaço à poesia de imagens. São dessas fissuras que o trabalho da compositora Emilie Levienaise-Farrouch (de Censor) salta aos ouvidos, quando adentramos no universo libertador que o sr. Williams passa a encarar o fim da jornada, em contrapartida aos seus acordes anteriores, que também representavam bem o lugar do filme em sua apresentação.
No centro das atenções, está Bill Nighy. Tudo que é feito de maneira braçal em Living iria por água abaixo se não estivéssemos diante do trabalho de uma vida de um ator em seu auge. Apesar do excesso de charme e das deliciosas criações, o cinema ainda não havia oferecido um desafio ao ator de Questão de Tempo e Simplesmente Amor. Com 50 anos de carreira, Nighy chamou (muita) atenção pela primeira vez em 1998, como o apaixonante protagonista de Ainda Muito Loucos. O que vemos aqui, no entanto, é uma faceta ainda não apresentada ao grande público, que conhece a verdade e a essência de um personagem em busca do tempo perdido. Seus dois lados são incorporados com excelência pelo ator, que emociona em uma zona longe da comicidade. O corpo e o rosto de Nighy são o arrebatamento final para tornar Living a peça surpreendente que é.
Um grande momento
Senhor Zumbi