Crítica | Festival

Censor

Muito além da homenagem

(Censor, GBR, 2021)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Prano Bailey-Bond
  • Roteiro: Prano Bailey-Bond, Anthony Fletcher
  • Elenco: Niamh Algar, Erin Shanagher, Clare Holman, Michael Smiley, Nick Brimble, Adrian Schiller, Felicity Montagu, Sophia La Porta, Nicholas Burns
  • Duração: 84 minutos

A exposição à violência gratuita dos filmes faz com que a sociedade se torne mais violenta. Quantas vezes isso não foi dito ignorando a natureza humana e a existência de guerras, perversidades e genocídios muito anteriores àquela primeira exibição pública dos irmãos Lumière? Censor toma como gancho essa hipocrisia demagógica para contar a história de culpa de Enid, funcionária do governo britânico que trabalha analisando obras audiovisuais que podem ou não ser vistas no país justamente por influenciar negativamente a sua população.

Quem dirige Censor é Prano Bailey-Bond, um das grandes promessas  – podemos dizer agora que realizada – do horror da atualidade depois de dirigir filmes como Man vs Sand, The Trip e Nast. Em seu longa, ela vai do humor fino inglês ao slasher mais explícito e mistura a intensidade dos diálogos a longos momentos reflexivos e experimenta o casamento de linguagens, indo do VHS ao digital, brincando com as janelas de exibição, com as cores e (d)efeitos que o tempo e tecnologia foram eliminando da vida cotidiana, como o burn-in ou aquela estática tradicional do fim de programação da época em que as Tvs ainda eram de tubo.

Essa definição temporal, aliás, é muito importante para o filme e para uma de suas linhas críticas. Porque além de uma grande e bela homenagem ao cinema de horror dos anos 1980, Censor vai buscar nessa hipocrisia da culpabilização da arte um de seus pontos. E Bailey-Bond pontua muito claramente isso em tela. Além da sequência que cobre offs de impressões populares colando diversas cenas gore, ela faz questão de colocar Tatcher, a Dama de Ferro discursando após uma ação nada sutil da delicada polícia britânica. E é assim por todo filme.

O outro lado também é dado quando ela pontua a própria censura e a incongruência do discurso. Se há a influência, como seriam as pessoas que passam os dias assistindo a esse tipo de conteúdo? E se há um desdobramento que possa ser problematizado, vários outros, de várias outras idades, estão ali – e não só ali – para relativizar a questão e demonstrar que a questão é muito mais individual do que de influência externa.

A questão individual, inclusive, recebe bastante atenção em uma elaborada história pessoal, que leva o filme a um outro lugar e que faz com que o horror deixe de ser um objeto coadjuvante para realmente se integrar à trama. Enid tem o seu passado culpado a resolver, numa temática que pode parecer velha conhecida dos amantes do gênero, mas que vai ganhando contornos tão inesperados que conquista o público. Dando vida à censora, está Niamh Algar em uma grande atuação, que vai muito bem da contenção ao pânico. A transformação pela qual a personagem passa durante o filme é impressionante.

Com um final inesperado e hipnotizante, Censor é um daqueles filmes que consegue partir de vários lugares e alcançar múltiplos objetivos, fala de política, de sociedade e do ser humano utilizando-se de elementos bem determinados com propriedade e sem deixar a impressão descartável de outros do gênero. A prova de que Bailey-Bond tem mesmo muito a dizer e sabe exatamente que ferramentas utilizar para isso.

Um grande momento
Na cabana.

[Sundance Film Festival 2021]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
Botão Voltar ao topo