Crítica | CinemaDestaque

Carvão

Olhe mais perto...

(Carvão, BRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Carolina Markowicz
  • Roteiro: Carolina Markowicz
  • Elenco: Maeve Jenkins, Rômulo Braga, César Bórdon, Jean de Almeida Costa, Camila Márdila, Pedro Wagner, Aline Marta
  • Duração: 105 minutos

O cinema brasileiro, sempre que possível, nos coloca a par de narrativas com entranhas menos depuradas, com observações – a partir de personagens e locais geográficos – menos acessados. Não é o caso de declarar ineditismo narrativo, com regulamentos não conhecidos; são estruturas de roteiro conhecidas, mas com sujeitos não-hegemônicos, em crises igualmente pouco debruçadas. Carvão, de Carolina Markowicz, é um bom exemplo dessa situação, onde seus personagens estão em situações que não foram exploradas a contento, nem em seu terreno físico ou psicológico. Ainda que sua base de entrada não seja algo repleto de novidades, e que mesmo o desenvolvimento aponte caminhos já vistos, é o espectro de sua psicologia, os desenhos de seus personagens, a ambiência de seus corpos, que definem o caráter novidadeiro em questão. 

Markowicz estreia na direção de longas, mas seu filme anterior, o curta metragem O Órfão, teve carreira muito bem sucedida, chegando a vencer o Redentor da categoria no Festival do Rio de quatro anos atrás. Lá, ou em Edifício Tatuapé Mahal, já demonstrava o claro domínio cênico-narrativo que está transposto aqui, com alguma invejável segurança. A força estética que ela já demonstra ter em suas obras reflete uma autora com muita consciência de seu lugar de experiência. Carvão encontra uma solidez rara de se perceber em estreantes em longa, e sua vitalidade está no olho de Markowicz, que captura os gestos certos nos momentos certos de cada ação. A propriedade do que está fazendo é tanta que o filme acaba por soar sempre cheio de energia e juventude. 

Carvão
Cortesia Festival do Rio

O roteiro de Carvão demarca muito bem as índoles de cada personagem, a apresentação de tudo é própria para cada intencionalidade em cena. São tipos muito humanos, mas todos com suas particularidades e desejos, e motivações dentro do que suas amarras propõem. Vai tudo muito bem, até que percebemos que nada ali é exatamente tão límpido assim, e as curvas que cada um apresenta enriquecem a experiência como um todo. Assim como essa introdução, o roteiro de Markowicz nos surpreende por tirar aqueles personagens de uma zona de conforto esperada, elevando cada um em cena e realçando suas características primais. No entanto, o olhar para cada um, quando são esmiuçados, eventualmente estará drasticamente alterado pelo espectador, e assim segue sendo ressignificado tudo que parece já decidido pela produção. 

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Se Irene e Jairo têm seu plano juntos, e também planos muito particulares que não dividem um com o outro (e isso vale para todos os outros personagens, literalmente), o corpo estético de Carvão não fica atrás, acompanhando o roteiro na hora de multifacetar seu esqueleto. A carvoaria, que é o negócio da família, por exemplo, tem um propósito muito centrado; fazer carvão, afinal – mas sua função dramática não se encerra aí. Assim como a igreja da região precisa de ajuda financeira, e no momento posterior onde isso é dito, uma panorâmica filma a grandiosidade arquitetônica da mesma, que está impecavelmente restaurada. Essa dualidade entre o que se é, o que se aparenta ser e o que se efetivamente é, carrega um manancial de possibilidades para a produção, a principal delas consiste em sua instabilidade. 

Não estou atentando para uma espécie de confusão estrutural, pelo contrário. Se tem algo aqui que não se configura como desequilibrado, é a espinha dorsal, concebida com o afinco de quem sabe que precisa de uma base para seus voos futuros. A instabilidade é legada ao espectador, que não terá certeza nunca sobre o passo a seguir de Carvão, positivamente falando. Essa característica construiu a aura de grandes sucessos do cinema mundial (me vêm na cabeça de Os Suspeitos a Parasita, passando por Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e Aquarius, só pra começar), mas que pode ser um desastre em mãos inábeis. Não é o caso aqui, onde Markowicz tem absoluta convicção da construção que faz, que independe, como já dito, dos arquétipos com que são trabalhados; são suas nuances, seus percalços de caminho, que confirmam o roteiro como um acerto coletivo. 

Carvão
Cortesia Festival do Rio

Um elenco irretocável, onde vemos Maeve Jinkings, Rômulo Braga e Camila Márdila, principalmente, em lugares absolutamente novos e intensos em cena, entregando toda a ambiguidade que uma história como essa pede, são constantemente surrupiados em cena por uma coisa pequena chamada Jean de Almeida Costa. Carvão, em sua lista infindável de qualidades, ainda encontrou tempo para fornecer ao cinema brasileiro mais uma criança notável, em interpretação arrebatadora inclusive quando o foco não é ele; a câmera é alucinada pelo diminuto ator. Ladrão de cenas, o filme precisa se afastar dele de vez em quando, para que a narrativa sinta sua falta, e o filme possa oxigenar para além de sua presença marcante. 

Além de tudo, Carvão se permite ainda flertar com o perigo, em debate. O filme mostra personagens explorando o trabalho infantil pesado, colocando essa mesma criança em contato com diálogos absolutamente pesados, e também transforma essa ousadia em naturalismo formal de argamassa sólida. Unido aos predicados já elencados, e ao desenho ousado de seus personagens, que nunca perdem humanidade ou requinte, mas ganham camadas a cada nova cena, Carvão justifica tudo que vinha sendo previamente comentado sobre ele, e arremessa sua diretora para longe das promessas. O caso aqui é o das certezas, com sua estrutura concreta de contação de uma história, que não importa se prevista ou não, mas com um grau de sedução inegável, e invejável. 

Um grande momento
Mãe e filho descem a colina discutindo (mas poderiam ser muitas outras)

[Festival do Rio 2022]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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