(The Favourite, IRL/GBR/EUA, 2018)
Drama
Direção: Yorgos Lanthimos
Elenco: Olivia Colman, Rachel Weisz, Emma Stone, Nicholas Hoult, James Smith, Mark Gatiss, Jennifer White, LillyRose Stevens
Roteiro: Deborah Davis, Tony McNamara
Duração: 119 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

Assumir uma história real, de época, e clássica em sua composição como a de A Favorita é, sem dúvida, um desafio para o diretor grego Yorgos Lanthimos. O criador de digressões como Dente Caninos e Alpes foi um dos precursores da Greek Weird Wave, que, com ares de nonsense, busca na ressignificação um modo de construir novas mitologias para definir o comportamento humano e as interações sociais.

Lanthimos é um dos nomes mais conhecidos do movimento e, desde seu longa O Lagosta, vem amenizando o discurso, buscando uma forma de adequar sua fórmula ao gosto mais popular. Sua tentativa de transformar em contos da carochinha as complexas histórias de traição, morte, vingança e dominação que vêm do Olimpo nem sempre dá muito certo, como se pôde constatar em O Sacrifício do Cervo Sagrado, onde a forma se sobrepôs negativamente ao conteúdo.

A Favorita chega como um desvio no caminho que o grego tenta traçar. A alteração aqui é anterior, a história contada não tem suas definições e anseios. E qual seria o resultado de alguém com uma presença tão registrada como ele tendo que lidar com algo tão quadrado? A resposta é uma espécie inesperada de equilíbrio. O conteúdo padrão traz a liberdade para que a forma ouse e a forma traz a rapidez e a fluidez para tornar aquele conteúdo único. Ainda que, ressalve-se, Lanthimos precise resolver o seu problema com a profusão no uso de lentes.

O roteiro, assinado por Deborah Davis e Tony McNamara, traz a história da relação entre a rainha Ana da Grã-Bretanha e sua chefe de aposentos, conselheira financeira e amante Sarah, que se abala com a chegada de Abigail, prima desta e nova dama de companhia daquela. Em uma trama de usurpação já tantas vezes vista nas telas, é a humanidade das três personagens que se destaca, sem maniqueísmos ou determinações extremas de índole, como costuma acontecer.

Com atuações precisas de Olivia Colman, genial como a instável rainha; Rachel Weisz e Emma Stone, o que se vê é palpável, lógico, humano. Mas Yorgos Lanthimos está por trás de tudo e isso não fica evidente apenas nas grandes angulares às quais o grego tem tanto apego e na estética. Há toda uma pressa nos diálogos e um toque sarcástico que mantém a trama no lugar tradicional, mas dá a ela um tempero diferente.

Outra marca do diretor está na manutenção de estética e conteúdo como elementos dissociados, mas complementares. As explorações espaciais e a iluminação natural, por exemplo, trazem um movimento de prolongamento diverso dos diálogos, encontrando na diferença uma espécie de confirmação.

Essa complementaridade está em todo o filme, ora legitimando o tradicional, ora dando espaço ao nonsense, ora conversado entre o que é Lanthimos e aquilo que dele se espera, como a trilha sonora, tão pessoal e característica para demonstrar o suspense, passando pelo órgão histérico na virada, até se transformar em algo batido e usual.

Para encerrar A Favorita, o diretor grego escolhe a sobreposição. Ali, de certo modo, está o que é o filme, o que é deixar algo tão tradicional na mão de alguém que narrativamente está em um outro lugar e tem outras proposições. E funciona lindamente. Segurando os arroubos criativos, nem sempre sãos, de um lado e libertando o quadradismo das histórias, principalmente as de época.

Um Grande Momento:
O minueto moderno.

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