Crítica | Festival

Agora

Filme-terapia, um acalanto nesse tempo histórico dolorido

(Agora, BRA, 2020)

  • Gênero: Experimental
  • Direção: Dea Ferraz
  • Roteiro: Dea Ferraz
  • Elenco: Adelaide Santos, Cris Nascimento, Dante Olivier, Flávia Pinheiro, Joy Thamires, Kildery Iara, Livia Falcão, Lucas dos Prazeres, Orun Santana, Raimundo Branco, Rosa Amorim, Silvia Góes, Sophia William
  • Duração: 70 minutos
  • Nota:

O útero talvez seja aquele espaço diminuto, aquecido, sem luminosidade mas onde a sensação de conforto, acolhimento e saciedade de todas as necessidades está presente. Como é agressiva a maneira que viemos ao mundo, sendo atirados de encontro a uma atmosfera fria, clara, barulhenta? Como cada vez mais queremos regressar e nos sentir seguros, fazer terapia é uma maneira subjetiva de adquirir uma segurança emocional. Outra seria a expressão artística.

O jogo cênico proposto pela pernambucana Déa Ferraz (Câmara de Espelhos) estreia na mostra Novos Olhares do Olhar de Cinema, trazendo experimentações performativas de artistas diversos, improvisando a partir de uma provocação: como você se sente “Agora”?

Então o corpo em cena move. Corpo que é narrativa transmutada da ação e reação. Que se alonga, expande, rola, arrasta, gesticula, batuca, grita, chora, gargalha, convulsiona, salta até se jogar no abismo – fundo infinito e obscuro, como o próprio futuro que não é possível enxergar.

Agora, de Dea Ferraz

Limitados ao chão e a caixa preta, corpos diversos em gênero, idade e aparência reagem a esse momento histórico e perverso. Reagem instintivamente e conscientemente ao ódio. Onde uma fala, a outra canta:

Presta atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó

Noutra cena, outro corpo vai pisando num caminho de cacos de vidro, tornados plástico bolha que imita os sons das balas de borracha alvejando manifestantes ou mesmo das balas de metal, matando pessoas trans diariamente nesse país.

Agora, de Dea Ferraz

“Como agora eu vou ficar, como eu vou viver com mais medo…”, conclama a performer e poeta preta, gorda e periférica. E ela completa afirmando que quer poder fazer poesia sem sentir raiva, com a fala branda. Se sentindo em paz.

Rodado de forma independente logo após as eleições de 2018, Agora é filme-terapia que se alimenta de “água, oxigênio e gente”. Os corpos estão congelados mas os corações vomitam fogo… Apesar de parecer mais adequado a outras metragens, já que sua repetição sequencial provoca um estiramento rítmico da montagem, esse filme experimental flerta com um cinema mais minimalista e galgado na dramaturgia brechtniana, onde os ecos do passado emergenciam o presente.

Esse sintagma conceitual está encenado na maneira com que os artistas acessam memórias de seus corpos ou evocam sensações sobre esse zeitgeist tão turbulento. Que seja possível reassumir a calmaria, quem sabe um dia. Após o fim da tempestade.

Um grande momento
Declamação da pretitute.

[9º Olhar de Cinema]

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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