Crítica | FestivalMostra de Tiradentes

Cabeça de Nêgo

(Cabeça de Nêgo, BRA, 2019)
Drama
Direção: Déo Cardoso
Elenco: Lucas Limeira, Nicoly Mota, Jéssica Ellen, Val Perré, Carri Costa, Mateus Honori, Jennifer Joingley, Larissa Góes, Hilton Costa, Raphael Souma, Jeff Pereira, Lucas Madi, Renan Pereira, Marta Aurélia
Roteiro: Déo Cardoso
Duração: 85 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

Muitas barreiras já foram rompidas, mas ainda falta um filme dirigido ou estrelado por pessoa negra entre os maiores sucessos do país. Cabeça de Nêgo, de Déo Cardoso, tem gana de ocupar esse espaço e estilo para isso. Na garupa da empolgação do protagonista Saulo Chuvisco (Lucas Limeira) com a imersão na história dos Panteras Negras, o filme se estabelece como uma cartilha de ativismo negro e estudantil que homenageia maciçamente os que vieram antes e indica caminhos para a atuação no agora.

Gremista engajado, o estudante dá uma de Rosa Parks e se recusa a levantar e sair de sala após ser flagrado revidando um ataque racista. A teimosia, no entanto, vai revelando outras camadas conforme novos dados vão surgindo e se consolida como espinha dorsal da narrativa. Jovem, negro, vivo é resistência diária afinal. A luta pela educação conecta-se com denúncia de corrupção, a simples recusa vira ocupação, implicância evolui para injúria racial, exigência de demandas torna-se guerra e Cardoso defende a tese de que um simples gesto pode mudar tudo de repente. A saída para não ser pego distraído é a antecipação, assumir a ação para si, ter voz ativa e altiva e não engolir nada em silêncio. Já que foi relativamente democratizada, usar a tecnologia como arma, mas sem abandonar meios menos efêmeros como os riscos na carteira e papéis.

Cabeça de Nêgo começa e termina de forma memorável sob forte influência de Spike Lee, enquanto no meio do caminho, salvo algumas exceções – como o registro pendular do burburinho impossível na aula de inglês e a projeção de ícones ao som de Emicida –, é trivial. Dedicado a embalar toda a militância e história do movimento negro possíveis em estética pop e acessível, o diretor não se mostra vaidoso artisticamente como o personagem principal, que escreve frase própria no quadro da sala em que se refugia.

Maniqueísta, o filme contém uma superficialidade apressada que, apesar de decepcionante, não compromete o propósito. Esperança cansa de esperar e a denúncia tem direito de tomar o lugar da poesia. Se o argumento é “está com pena, leva para casa”, que a resposta seja mesmo “mais um na escola, menos um no crime”. Black baby steps no encalço do pantera negra favorito – vale até o da Marvel porque é melhor do que nenhum.

Um Grande Momento:
Estudantes botam pressão para entrar na garagem.

[23ª Mostra de Tiradentes]

Taiani Mendes

Crítica de cinema, escritora, poeta de quinta, roteirista e estudante de História da Arte. Também é carioca, tricolor e muito viciada em filmes e algumas séries dos anos 90/00.
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