Crítica | Streaming

Cercados

O caos que contamina

(Cercados, BRA, 2020)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Caio Cavechini
  • Roteiro: Caio Cavechini, Eliane Scardovelli
  • Duração: 116 minutos
  • Nota:

Muitas são as informações por trás de Cercados, o novo documentário original da Globoplay. Produto realizado ainda no decorrer dos fatos que apresenta, o filme traz questões características das produções de urgência: carece de distanciamento, não consegue abraçar a contento tudo o que propõe e precisa complementar informações com suposições. Isso tudo sem falar no mais grave problema, uma certa condescendência e deslumbramento com a gigante da qual sua produtora faz parte. O longa é dirigido por Caio Cavechini, que até então tinha feito três longas ao lado de Carlos Juliano Barros e assinara a série documental sobre a vida e a morte da vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes, esta roteirizada por ele e por Eliane Scardovelli. O mergulho nesse caos onde mergulhou o Brasil pós-pandemia também é roteirizado pelos dois.

Embora claramente bem intencionado, o filme é perdido em si mesmo pois o material é caótico em sua essência e a organização não parece ser algo muito viável. Com tantas vertentes, fica difícil encontrar um caminho para seguir. Se os cercados do título remetem ao lugar que o presidente Bolsonaro reserva à imprensa em seu governo, é mesmo a pandemia Covid-19 quem chama mais atenção. Da doença, saem alguns braços narrativos: o tratamento jornalístico aos eventos, seja em cobertura, captura, produção de pautas e as próprias redações – em destaque a do JN -; as crises de Estado causadas pelos desvarios do Chapeleiro Louco que mora no Palácio do Planalto e a desautorização a seus ministros da saúde; as fake news; a corja de lunáticos que venera o líder ainda mais lunático; a corja de fascistas e supremacistas que venera o líder ainda mais fascista e supremacista; e as mortes, milhares de mortes.

Cercados, documentário da Globoplay

Cavechini quer falar de tudo e é importante que tudo ali seja dito. Mas falta uma montagem mais eficiente ao material. Não há equilíbrio entre as passagens e nem fluidez entre elas. mais do que isso, falta espaço e tempo para tudo seja explorado como deveria. O absurdo dos primeiros oito meses do Covid no Brasil são tão surreais que Cercados renderia não apenas vários episódios de um seriado, mas várias temporadas de uma série. Uma delas, por exemplo, é aquela que recebe a maior atenção dos roteiristas, a que aborda o cotidiano da redação do telejornal mais assistido do Brasil, o Jornal Nacional, com reuniões de pauta, o trabalho da produção, a postura de William Bonner, as mudanças de comunicação com a pandemia, as máscaras, a participação da diretoria em questões mais sensíveis. Destacada como uma espécie de fio condutor da trama, sofre com o principal mal do filme, a falta de foco. É o caso da reunião presidencial.

Demonstrando: Cercados começa com o anúncio da demissão de Nelson Teich e assume o assunto coronavírus como seu tópico exclusivo, passa pelas dolorosas imagens de cemitérios, hospitais, pelos absurdos bolsonarianos, pelas redações jornalísticas, pelas coletivas de ministros e de repente se desvia para Sérgio Moro e a tal reunião presidencial. Fato conhecido de todos os brasileiros, quando o diretor leva a reunião à tela, se perde no ex-ministro da Justiça, na contenda judicial sobre a liberação ou não da íntegra do conteúdo, volta ao cercado para as justificativas furadas do presidente, destaca a fala “eu não vou esperar f* minha família toda” e deixa escanteada a mais importante fala sobre coronavírus proferida na mesmo reunião. Para quem não se lembra: “Então, pra isso precisa ter um esforço nosso aqui. Enquanto estamos neste momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de COVID, e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”, do também péssimo Ricardo Salles. Não seria esse o ponto?

Cercados, documentário da Globoplay

Não que não se compreenda a derrapada no caminho. Porque é assim, o Brasil de Bolsonaro é isso. Se você se distrai um pouco tanta coisa grave e inesperada acontece que é difícil saber para onde se estava olhando. Mesmo em meio a uma das mais graves pandemias da História recente, ele e sua família conseguem ser completamente absurdos e desconectados, mas o fato deles serem assim e país parecer estar sempre à deriva não justifica que o fio do documentário seja perdido também. Se houve uma demarcação pelo diretor na apresentação: “a imprensa contra o negacionismo na pandemia”, e o escopo já é gigantesco, ele precisa ser observado.

Cavechini e Scardovelli tentam manter-se mais atentos ao tema, mas querem buscar a origem do negacionismo, por exemplo, em um outro aprofundamento que isoladamente daria uns dois documentários. Falam do fanatismo do cercadinho ao lado, das alucinações conspiratórias de WhatsApp que unem Foro de São Paulo, Ursal e George Soros, da saudação neo-nazi de Winter. Mais desvios que só um governo inacreditável como este poderia proporcionar, mas que prejudicam sobremaneira e ocupam um espaço já insuficiente e que, se era para ser usado, que fosse com a Cloroquina, Ivermectina ou as teorias xenófobas absurdas que andaram circulando nas redes sociais.

Cercados, documentário da Globoplay

Quando se volta a sua ideia original, o documentário consegue fazer um resumão não muito aprofundado – e bem parcial – do governo, da imprensa, do sistema de saúde, da população. Tenta-se, como em toda a cobertura sobre a pandemia, personalizar as vítimas, para que não sejam apenas estatísticas. O filme também faz isso, ainda que sejam os números que se destaquem nas cartelas que dividem o filme. Tudo é muito triste e inescapável. Constatar que do outro lado desta grande perda está um louco saído de uma distopia mal escrita e inverossímil, embora real, não melhora nem um pouco as coisas.

Cercados, em seus desencontros, tem momentos tocantes e consegue alcançar algo que muitos filmes tentam sem sucesso, o sentimento do fazer jornalístico: como o jornalista, em especial o repórter (mas não só ele) se enxerga em meio a tudo o que acontece em volta dele. E talvez supere o maior desafio que a doença trouxe, revelar os seres humanos por trás da catástrofe. Porque o que interessa a Cavechini – mesmo que contaminado pela marca e tomado pela escolha estética exagerada do final – são as pessoas por trás de tudo aquilo e como elas são afetadas pela situação; suas reações profissionais, sociais e humanas ao caos causado pelo vírus e pelo homem com a caneta bic.

Um grande momento
“Eu não queria ter que voltar aqui nunca mais, mas eu tenho”

Ver “Cercados” nas Globoplay

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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