Crítica | Festival

El gran viaje al país pequeño

(El gran viaje al país pequeño, URU, 2019)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Mariana Viñoles
  • Roteiro: Mariana Viñoles
  • Duração: 106 minutos
  • Nota:

A diretora e roteirista Mariana Viñoles apresenta em El gran viaje al país pequeño um planejamento de oportunidade sonhada que é sistematicamente desintegrada pela realidade em um filme que dialoga com o presente de maneira tão atual, que o ponto de vista aqui nem foi acessado ainda. Todo o processo migratório do presente é trágico, injusto, cruel, os povos muçulmanos e africanos têm enfrentado processos inumanos na tentativa de ter uma vida digna, sem ameaças e própria de oportunidades. Mas e quando a promessa de um lugar repleto de justiça social e chances igualitárias se esvai, como lidar com a nova configuração que atualiza sofrimentos?

O grupo de personagens que é focado por Mariana se encontra na embaixada do Uruguai a pedir exílio logo na abertura do filme, e encontram mais do que portas abertas; encontram a certeza de uma vida melhor, que é fustigada posteriormente pela própria diretora pela ilusão que as promessas incutiram em pessoas que só tinham a elas. A “terra das oportunidades” ofertada antes da viagem não passava de uma realidade ainda amarga. Precisando de atendimentos médicos e de emprego, a família protagonista se encontra em determinado momento absolutamente dependente e sem perspectiva, a não ser a de possivelmente voltar para seu país de origem.

El gran viaje al país pequeño

Ao firmar-se no Uruguai e perceber que as possibilidades locais guardam diferentes graus de decepção, essa família acaba abrindo espaço para a entrada de outra, com formação agrícola, e ambas acabam encontrando caminhos tortuosos para se firmar em seus núcleos, e livrar-se das carências que os deprime ainda mais. Disposta a não interferir na potência cênica que emana da própria situação, Mariana narra sua produção e estabelece essa conexão como um ponto de observação autoral, desenvolvendo sua narrativa e pontuando os acontecimentos com sua visão da realidade que não escondem seus privilégios.

A direção não se sustenta no maniqueísmo social ou em algum vitimismo particular, ainda que sejam histórias que reverberem solidão e abandono político; o filme trabalha a relação daquelas pessoas não apenas com a câmera, mas com as inúmeras câmeras de celulares que elas manuseiam e transformam as suas realidades. No mundo virtual todos somos felizes, bonitos e realizados, e seus personagens acabam mergulhando nessa armadilha sem compreender a mesma. Com isso, se tornam reféns de uma sociedade que exige felicidade até mesmo a refugiados.

El gran viaje al país pequeño

Mariana também se interessa por esses momentos de idílio cinematográfico-pessoal, quando as famílias se desprendem de suas cruezas diárias para esse acesso a tecnologia irrefreado e herança de uma sociedade original castradora (a cena onde a protagonista fala pra mãe que estava no telefone enquanto andava pelas ruas), ou de absoluta imersão na natureza, também ela fonte de dois polos, a descoberta do admirável mundo novo e a violência ancestral, criando um paralelismo entre animais racionais e irracionais – todos acabam encontrando o mesmo irremediável fim.

Essas contradições que se apresentam nos personagens, perdidos entre o ficar, o ir, o vir, e sonhar, o despertar, são arregimentadas pelo filme de modo muito orgânico, o que acaba gerando reações disparatadas também no ato de assistir, que vai além da importância sociológica. O olhar da diretora, seu posicionamento ambivalente (ora parcial, ora distanciada) fazem de El gran viaje al país pequeño uma peça muito diferenciada dentro de Gramado. Um filme que evoca o real através da chave documental pra flertar com o poder da imagem sempre que pode, e terminar num plano que reflete o fascínio entre criadora, criaturas e a máquina de que lhes apresenta, e aprisiona.

Um grande momento
Cabelo ouro.

[48º Festival de Gramado]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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