Crítica | Festival

Exílio

(Exoria, GRE, 2019)

  • Gênero: Fantasia
  • Direção: Vasilis Mazomenos
  • Roteiro: Vasilis Mazomenos
  • Elenco: Stefanos Kakavoulis, Dimitris Siganos, Angeliki Karistinou, Katerina Tsasi Dede, Panos Boras, Fanis Milleounis, Panos Zournatzidis, Alexios Kotsoris, Dimitris Fourlis, Christos Zaxarof, Kostis Savvidakis
  • Duração: 110 minutos
  • Nota:

É muito interessante observar como as atuais narrativas gregas, por mais que contaminadas por muitas influências modernas, voltam de alguma forma à mitologia clássica. Como se algo daquilo estivesse dentro deles de uma maneira da qual não há como fugir. Exílio é um longa-metragem completamente inserido nesta mitologia, ainda que reconfigurada e modernizada, é ela que dá sustentação a tudo que se apresenta. O cinema grego, desde a Nova Estranha Onda, é muito criticada, primeiro por estar intimamente ligada à crise – algo que não entendo muito bem o porquê incomoda aos críticos – e depois por esse uso da mitologia e da tragédia de um jeito muito particular.

O incômodo desta nova cinematografia pode até ser execrado por aí, mas a ressignificação de mitos e até mesmo do próprio modo elaboração da trama tem muita coisa a dizer. O filme de Vasilis Mazomenos não nega a nacionalidade e nem as origem. Num longo plongé, mostra um homem à deriva e sua tentativa de se salvar em uma velha embarcação naufragada. A humanidade sem rumo e a crise, portanto, estão ali naquelas primeiras sequências. Eis que surge Caronte, ou melhor, a versão duplicada de Caronte, o barqueiro de Hades, aquele que leva as almas ao inferno.

Exílio (2019)

O inferno para aquele homem é voltar ao lugar de onde tentara fugir, sua terra natal. Em planos fixos e longos, Exílio mostra esse retorno, ironizando com a pessoa exilada dentro do próprio país. A xenofobia e o classismo abrem o campo para outras manifestações reprováveis de civilizações ditas avançadas. Aris experiencia todo tipo de maus tratos daqueles que se aproximam dele. É humilhado, diminuído, assediado. Entre movimentos persuasivos, assim como Ares em “A Ilíada“, fica chicoteando de um lado para o outro, tentando arrumar um lugar para defender.

Mazomenos é um adorador de quadros elaborados e, acompanhado pelo fotógrafo Fotis Mitsis, opta por planos fixos, com muita atenção à profundidade de campo. Há quadros que parecem pinturas, como quando Aris chega de volta à ilha. Leva muito tempo, mas é bonito de ver. A abordagem cênica é contraditória. Se a construção visual é elaborada e bastante cinematográfica, a disposição dos corpos e as atuações são extremamente teatrais. A quebra leva ao estranhamento citado no começo do texto, aquele que identifica a própria cinematografia.

Exílio (2019)

Exílio aposta em várias referências para descrever a Grécia atual. Do Khomeini na parede à luta grega péla, passeia por vários lugares e posicionamentos sociais. Entre os mais contundentes está o fato do filme ser falado majoritariamente em inglês, demonstrando a perda de identidade como um todo, assim como o entoar do hino nazista – ou melhor dos versos banidos do hino alemão – demonstra uma tendência mundial de retorno à intolerância, principalmente pelos jovens.

E ainda tem Liza Minnelli, “Money makes the world go round”, e a deturpação de Esopo pelos novos contos de fadas, de Perrault à própria Disney, ao som de uma infantilizada versão de “Once Upon a Dream”, tema de Cinderella, em um teatro erótico do absurdo. Todas as referências muito condizentes com tudo aquilo que o longa quer discutir. 

Exílio (2019)

Na forma também está a assimilação de referências, um pouco mais tradicionais. Como em uma tragédia, a história de Aris é dividida em atos, com transições marcadas por slow motion e filtro azul. A quebra, bem-vinda em um primeiro momento, cansa e encontra na repetição excessiva um desligamento gradual do filme, até existe a reconexão, mas os saltos são prejudiciais ao todo.

Há exagero e há deslizes, sim, mas é uma viagem curiosa por ilustrar o mundo através de antigas definições e jogar com elas o tempo todo, encontrando novos significados e conexões. O próprio diretor expõe a sua contaminação, que é a de todos enquanto produtos de uma sociedade, com o uso do sarcasmo e da ironia em escolhas questionáveis que estão propositalmente presentes. É como seu Virgílio mudo e emburcado ou seu Tânato capitalista. No fim das contas, Exílio é uma experiência de significado, forma e estilo e vale ser conhecida.

Um grande momento
De volta.

[10º Cinefantasy]  

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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