Críticas

Forastera

Uma ausência vestida

(Forastera, ITA, SUE, ESP, 2025)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Lucía Aleñar Iglesias
  • Roteiro: Lucía Aleñar Iglesias
  • Elenco: Zoe Stein, Lluís Homar, Marta Angelat, Martina Garcia, Nonni Ardal Hammarström, Núria Prims
  • Duração: 97 minutos

O verão de Forastera começa com toda aquela claridade das casas de família em férias, onde tudo parece suspenso pela rotina, pelo calor, por irritações geracionais e por uma intimidade construída por gestos repetidos muitas vezes. Lucía Aleñar Iglesias filma Maiorca como um lugar ao mesmo tempo solar e levemente fora do eixo, atravessado por uma beleza que nunca se oferece por completo ao descanso. Há mar, há luz, há casa, há avós, há infância ainda próxima, mas a morte chega sem solenidade, absurda, interrompendo a banalidade do cotidiano e abrindo um buraco que a adolescente Cata tenta preencher com o recurso mais antigo e perigoso da imaginação: brincar de ser outra pessoa.

A força do filme está justamente na forma como essa brincadeira é instável. Cata, que já tem o mesmo nome da avó, começa a vestir as roupas da falecida e a ocupar um espaço com o qual a família ainda não sabe como lidar. Poderia ser apenas uma reação adolescente ao luto, mas Aleñar Iglesias quer mostrar que certos objetos guardam uma energia que ultrapassa a lembrança. Um vestido, um penteado, uma postura diante da mesa ou do avô passam a agir sobre a personagem, como se ao usar o vestido, a roupa também a vestisse. A diretora transforma o deslocamento em tensão sem recorrer ao susto, preferindo uma inquietação mais profunda, feita de olhares longos, silêncios e pequenas alterações de comportamento.

A relação entre Cata e Tomeu é a mais delicada e arriscada do filme. Há algo desconfortável no pacto silencioso entre uma menina que testa os limites da própria identidade e um homem paralisado pela perda. O que nasce ali é uma zona ambígua, atravessada por ternura, dependência, fantasia e uma tristeza que os dois são incapazes de atravessar de outro modo. O idoso aceita o jogo porque a presença inventada da neta oferece uma forma provisória de permanência; A jovem continua porque descobre, no papel herdado, um poder que a infância ainda não lhe dava e a vida adulta ainda não sabe organizar.

O título Forastera traz a ideia de estrangeira, e a palavra se abre em várias direções dentro do filme. Cata é estrangeira em Maiorca, estrangeira dentro da própria família, estrangeira diante do corpo em transformação e, pouco a pouco, estrangeira em si mesma. Diálogos em espanhol, catalão e inglês ampliam essa sensação, porque a língua deixa de ser apenas um detalhe e passa a participar da metamorfose. Cada idioma desloca um pouco a personagem, muda sua temperatura, reposiciona sua relação com os outros.

A casa é uma personagem. Ela guarda a avó, mas também guarda a forma como todos preferiam existir antes da morte. A câmera de Agnès Piqué Corbera trabalha essa arquitetura com uma frieza discreta, mantendo a aparência de cartão-postal e contaminando essa superfície com estranhamento. A beleza não suaviza o luto; ela o torna mais incômodo, já que a paisagem continua indiferente enquanto a família se desestabiliza. O contraste dá ao filme uma qualidade quase fantasmagórica, mesmo que nada se apresente nos moldes tradicionais do sobrenatural.

Forastera, flerta com uma aproximação com histórias de possessão, casas assombradas e fantasmas familiares, mas está mais interessado no que a imaginação produz do que no que ela explica. O fantasma aqui aparece como invenção emocional, como tentativa de dar forma ao que desapareceu, como presença fabricada por quem ficou. Por isso o filme se aproxima mais de uma fábula íntima sobre luto e adolescência do que de um drama psicológico ou um terror. Cata não procura compreender a morte da avó; ela procura uma maneira de habitá-la por alguns instantes.

Derivado de um curta, mais sombrio, filme não consegue sustentar todas as sensações do antigo formato. Porém, permite que Aleñar Iglesias amplie o jogo. Além de trazer à protagonista um conflito que complica e transfere sua relação com a morte da avó e o luto, a presença da mãe, Pepa possibilita outra tensão. Na tentativa de reorganizar a casa, ela – mais uma forasteira – ameaça o pacto estranho entre filha e avô. A família surge então como um organismo que reage mal à mudança, tentando devolver cada pessoa ao lugar conhecido mesmo quando esses lugares já deixaram de existir. Forastera observa essa reorganização com paciência, atento ao modo como o luto pode infantilizar adultos, amadurecer crianças e transformar afeto em disputa por espaço.

Zoe Stein, com uma presença magnética e escorregadia, dá vida à Cata. Sua composição é cheia de opacidade, sem que nunca se entregue por inteiro. Essa reserva funciona bem. Ela pode estar curiosa, assustada, vaidosa, perdida ou simplesmente fascinada pela possibilidade de existir com outra pele. A atuação se destaca por essa oscilação, pelo modo como cada gesto parece nascer de um impulso real e, logo depois, ganhar uma camada de encenação. Lluís Homar a acompanha com uma fragilidade contida, fazendo de Tomeu um homem que sabe estar brincando e, ainda assim, precisa acreditar no jogo para continuar dentro da casa.

Forastera é um primeiro longa muito seguro na construção de atmosfera e admirável na recusa em explicar seus abismos. Em alguns momentos, essa contenção também cria certa distância, como se a delicadeza visual e a suspensão dramática mantivessem a experiência presa a uma zona de observação muito controlada. Ainda assim, quando encontra seu ponto de combustão silenciosa, o longa revela uma atenção rara para os rituais íntimos do luto e para os perigos da imaginação.

Lucía Aleñar Iglesias filma a ausência como algo que circula pela casa, encosta nos objetos, muda a língua, altera os corpos e confunde os papéis familiares. O resultado é um coming-of-age atravessado por assombração e interessado em acompanhar a deriva por um território onde herança, desejo e perda se misturam. Forastera mostra que crescer também pode ser vestir por um instante aquilo que veio antes, sentir o peso dessa presença e descobrir, com algum medo, que nenhuma identidade nasce sem fantasmas.

Um grande momento
No carro, voltando pra casa

FORASTERA estreia nos cinemas em 29 de maio, com uma temporada de uma semana no Film Forum, em Nova York. No fim de semana, a diretora participa de sessões seguidas de debates com o público.

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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