Crítica | Festival

Garota de Ipanema

Signo desgastado

Há um gesto muito claro em Garota de Ipanema: o de pegar um signo que já nasce pronto e fazer com que ele não funcione mais. Quando Leon Hirszman filma esse universo, ele não está interessado em acompanhar uma jovem da zona sul carioca, ele quer tensionar o conjunto de imagens que definem aquele espaço. A garota, a praia, a bossa nova, tudo isso que já chega carregado de sentido, domesticado por um imaginário que vende o Brasil como leveza e harmonia. O filme não substitui esse imaginário por outro mais “verdadeiro”, mas insiste nele até que comece a rachar.

A bossa nova e a canção-símbolo que dá nome ao longa – elementos que internacionalizaram uma imagem da mulher brasileira como figura idealizada –, entram no como elementos em crise, sempre em algum lugar entre o elogio e a desconstrução. O que deveria funcionar como fluidez passa a produzir atrito. Rompendo a forma, canções não organizam a narrativa, não conduzem emocionalmente as cenas como no modelo clássico do musical de estúdio. Elas surgem deslocadas, como se viessem de um outro tempo do cinema, carregando uma herança que já não encaixa mais. Hirszman parece trazer esse uso para dentro do Cinema Novo apenas para colocá-lo em curto-circuito.

E esse não é o único soluço formal. Há uma articulação com uma crise mais ampla de representação. A imagem da garota, consolidada pela canção, aparece no longa já atravessada por um mal-estar. A mulher idealizada, diante das tensões do seu tempo histórico, se torna melancólica. Não há mais espaço – em especial no Brasil daquela época – para tal inocência. A câmera insiste, mas a personagem não se fixa como ícone, porque o próprio filme desconfia da possibilidade de existir um ícone ali.

O movimento dialoga com um momento específico do Cinema Novo, quando o próprio projeto do movimento começa a se tensionar. Ao invés de reafirmar uma imagem do Brasil, Hirszman passa a questionar as imagens já dadas, inclusive aquelas que circulam com facilidade dentro e fora do país. O deslocamento para a zona sul carioca não é um abandono do político, mas uma forma de expor outra camada. Garota de Ipanema trabalha justamente na intersecção entre prazer e política, revelando as contradições do cotidiano durante a ditadura. Contradições estas que aparecem na forma de uma facilidade que incomoda.

A vida que Garota de Ipanema acompanha é marcada por circulação, encontros, música, desejo e até transe, mas tudo parece acontecer sem resistência e sem que haja conquista ou avaço. A classe média alta branca de Ipanema se move dentro de um espaço onde o conflito estrutural não desaparece, mas é mantido fora de campo. Com o país atravessando um período de repressão, aquele universo segue operando como se nada estivesse acontecendo. O filme não denuncia isso de maneira direta, mas insiste na superfície até que ela revele seu próprio vazio.

A forma acompanha esse processo ao recusar estabilidade. A narrativa não se organiza para guiar, as cenas não se encaixam com conforto e o longa como se cada tentativa de fixar sentido fosse imediatamente corroída. Esse gesto aproxima linguagens que não se conciliam completamente, o musical, o cinema moderno, o próprio repertório do Cinema Novo, e faz dessas intersecções um campo de experimentação.

O que emerge disso é um desassossego que atravessa tudo. A garota, a música, a praia, nada se sustenta como imagem. Embora Garota de Ipanema não destrua esses signos de maneira frontal, ele os desgasta, os repete, os desloca, até que deixem de funcionar. No fim, o que estava em jogo desde o início aparece com mais nitidez: não a garota, mas o colapso da imagem que fizeram dela e, junto com ela, de um Brasil inteiro que parecia fácil demais para ser de verdade.

Um grande momento
A grande ascensão

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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