Crítica | Festival

Judas e o Messias Negro

O lado do covarde

(Judas and the Black Messias, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Shaka King
  • Roteiro: Will Berson, Shaka King, Keith Lucas, Kenneth Lucas
  • Elenco: Daniel Kaluuya, LaKeith Stanfield, Dominique Fishback, Ashton Sanders, Algee Smith, Lil Rel Howery, Jesse Plemons, Martin Sheen
  • Duração: 126 minutos

De volta aos anos 1980, estamos diante de William O’Neal, infiltrado do FBI que traiu Fred Hampton delatando seu esconderijo e possibilitando seu assassinato pela polícia. Hampton era uma das cabeças do Partido dos Panteras Negras, que, de cunho socialista, tinha como objetivos vigiar a truculência policial e prestar diversos serviços sociais à comunidade negra. Quem conta a história de O’Neal, da traição e do partido é Shaka King, em seu segundo longa-metragem depois de um hiato de mais de sete anos. Judas e o Messias Negro é um filme ousado e elegante, com duas atuações potentes: LaKeith Stanfield como o Judas e Daniel Kaluuya como o messias, e muita informação.

Da conotação bíblica de seu título, em referência àquele que causou a morte do que metaforicamente veio à Terra para salvar todos os homens, com atos e palavras, King demonstra a crença no viés revolucionário da associação, com referências a figuras proeminentes da década de 1960 – época onde o tempo do filme se estabelece – e hoje clássicas da História, como Che Guevara e Malcolm X, e determina Fred Hampton como um deles. Com verve única, o militante acreditava na palavra e na distribuição de renda como únicos possibilitadores da real mudança.

Judas and the Black Messias
Courtesy of Sundance Institute | Foto: Glen Wilson

O diretor sabe que precisa dar conta de uma trama complexa, que envolve não apenas a perseguição da polícia, toda a questão social por trás do fortalecimento do movimento e o preconceito por ele gerado, a reação política e as próprias discordâncias internas do partido. Em pouco mais de 2 horas, detalhes sensíveis são salpicados, amarrados pelas histórias pessoais de O’Neal e Hampton, o deslumbre de um, a determinação de outro, a solidão de um, a falta de consciência do outro. Há muitos acertos nesse jogo, sequências realmente bem estabelecidas e construções inteligentes, com quadros bem pensados, segurança no tempo, e cenas inspiradíssimas dos dois atores, mas o conjunto apresenta uma certa irregularidade que esfria a relação com o público.

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É como se o vínculo não conseguisse se manter por muito tempo, embora a paixão não deixasse de aparecer várias vezes, causando uma relação confusa com o filme, que sobrevive, porém, independentemente disso, também por sua história e por seus meandros complexos. Não apenas na sanha de J. Edgar Hoover, na fixação racista anticomunista – e tão atual – ou nas incompatibilidades de meios para alcançar os mesmos objetivos, mas talvez o que Judas e o Messias Negro traga de mais interessante está no personagem de Stanfield, em suas contradições, seu ato imperdoável e em como ele próprio olha para si. Há toda uma questão etária, manipulatória, de deslumbre, inconsciência e culpa que o filme explicita e apenas deixa ali.

Às vezes nós também racionalizamos, quer dizer, tentamos mostrar a nós mesmos, e aos outros, que temos outros motivos para fazer o que fazemos em certas situações, e não revelamos os reais motivos que nos levaram a agir de certa maneira, simplesmente porque eles são constrangedores demais

Freud
Judas and the Black Messias
Courtesy of Sundance Institute | Foto: Glen Wilson

Entre os pontos positivos, outro grande destaque é a participação de Dominique Fishback como Deborah Johnson, viúva de Hampton, completando a trinca de grandes interpretações. Em mais uma de suas transmutações, a jovem confusa de Power e a briguenta desbocada de O Ódio que Você Semeia viram a marcante militante que se apaixona. King trabalha bem com a direção de atores, exige de todos, mas tem muita segurança dos limites e se talvez alguém esteja um pouco fora do ponto, esse talvez seja Martin Sheen, com um afetado Hoover, mas nada tanto assim.

Além das atuações, Judas e o Messias Negro ainda tem todo um cuidado técnico. Muito bem elaborado na pesquisa de produção, faz um bom trabalho de resgate e colagem de imagens de arquivo, e de reconstrução ficcional. É um filme que, em sua ousadia, ganha e perde pontos: consegue dizer muitas coisas, mas, ao mesmo tempo, acaba não tendo condições de manter o vínculo linear. E se a entrega perde força de vez em quando, o filme também se perde um pouquinho, mesmo que volte – e ele volta – não é a mesma coisa. Escolhas. Entre contar tudo e envolver mais, King fez a sua opção. Essa não deixa de ser válida.

Um grande momento
“Eu sou um revolucionário”

[Sundance Film Festival 2021]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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