Crítica | Festival

La frontera

(La frontera, COL, 2019)

  • Gênero: Drama
  • Direção: David David
  • Roteiro: David David
  • Elenco: Sheila Monterola, Daylin Vega Moreno, Alejandro Aguilar, Nelson Camayo, Yull Núñez
  • Duração: 90 minutos
  • Nota:

La frontera é a estreia em longas do jovem diretor colombiano David David, daquelas promessas que chamam atenção de cara pelo comprometimento com a imagem e com a palavra falada, e que não cansa de surpreender. Por abrir de forma muito literal e direta, o filme acaba por adquirir texturas aprofundadas ao longo da jornada, e a mesma sai da zona de conforto a todo tempo até o derradeiro clímax emocional, onde o roteiro nos apresenta cada vez mais camadas de sua observação sobre a jornada de sua protagonista, uma anti-heroína das mais instigantes que Gramado 2020 verá esse ano.

Somos apresentados a um trio de personagens que só se estabelece ao público quando se desfaz. Diana, Jorge e Chevrolet são uma família disfuncional que em pouco tempo entendemos que não precisa de torcida: trata-se de um trio de ladrões de estrada, que no limiar da miséria absoluta, encontrou um modo de sobrevivência em meio a violência. Diana está grávida de quase 9 meses, Chevrolet é o pai desse bebê e chefe contemporizador dessa família que formou com a jovem esposa e o cunhado Jorge. O calvário de Diana se dá quando os dois “homens da casa” faltam após um assalto frustrado, e ela é presa; é a partir desse momento que o filme deságua em outro caráter observacional a respeito dessa jovem mãe. 

Sozinha em um ambiente abandonado, semidesértico e gradativamente hostil, Diana se deixa afundar em delírios pulsantes e cheios de vida e uma atmosfera de crescente angústia, oposta aos seus sonhos. Não mais que de repente, dois novos personagens surgem trazendo diferentes elementos que complexificam a construção da protagonista e também ampliam as camadas do filme, que adquire a um só tempo um forte comentário político e a leveza necessária para que o todo não fosse assolado pelo peso do mundo. É dessa dinâmica entre a introspecção, o perigo e um insuspeito humor que as bases de La frontera se reerguem, para mostrar sua real amplitude. 

O filme, que se situa na fronteira entre a Colômbia e a Venezuela, não nega as raízes da sua filmografia e costumes natais, e se rega de misticismo, política, abandono social e emocional e coroa com uma ode à sororidade, num caldeirão onde cada um desses elementos aparecem destacados e também condensados. A cargo do também estreante em longas Ivan Molina Carmona na fotografia, o filme estabelece um rico quadro imagético para o filme baseado em tons terrosos e esfumaçados que são quebrados pelo ostensivo fulgor dos sonhos delirantes de Diana e ganha nova paleta com a entrada em cena de Chalis, cuja exuberância é absorvida pela produção; até o desfecho, David vai se mostrar disposto a alterar os tons de seu filme a cada novo bloco de acontecimentos, de maneira orgânica. 

Autor também do roteiro, David se alimenta não de reviravoltas ou de surpresas narrativas, mas de um consciente tratamento dado aos elementos cênicos e arquetípicos, ao elaborar sua espécie de fábula da luta pela sobrevivência em tempos também eles fronteiriços, que impedem a aproximação e regem relação inumanas. Diana é uma flor bruta do deserto que se abre para a chegada de dois estranhos que a obrigam a olhar pra si, pro seu estado, e cuja empatia é compartilhada sem fins negativos, como se uma reconstrução possível só se apresentasse quando fosse permitido luz sobre as trevas – a chegada da ação sobre a inércia. 

O acompanhar da jornada rediviva de Diana é amplificado pela troca gradual de mal disfarçado afeto entre ela e Chalis, e é preciso comemorar os pontos marcados pelo diretor ao encontrar Daylin Vega Moreno, filmar seu processo de imersão da melancólica inoperância e permitir o desabrochar de força sutil dessa atriz, até a chegada do vulcão textual Sheila Monterola, e a partir do encontro entre dois opostos tão evidentes, fazer nascer uma bela história não apenas de um resgate, mas da gentil abertura para o mesmo; uma simbiose artística sem par e uma química avassaladora explodem na tela. 

La frontera (2019)

O que La frontera no final apregoa, com uma história de acovardamento e fuga constante do masculino, é a força do feminino como arma de resistência contra a violência, o autoritarismo, a servidão e a destruição dos valores familiares. Mais do que um banho de sororidade, David David grita que a ação solidária irá salvar quem se permitir ser salvo, e que os sonhos são feitos para serem realizados. 

Um grande momento
O nascimento 

[48° Festival de Gramado]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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