Crítica | Festival

Memória

Um percurso sensorial pelo tempo

(Memoria, COL, THA, FRA, ALE, MEX, QAT, GBR, CHI, SUI, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ficção Científica
  • Direção: Apichatpong Weerasethakul
  • Roteiro: Apichatpong Weerasethakul
  • Elenco: Tilda Swinton, Elkin Díaz, Jeanne Balibar, Juan Pablo Urrego, Daniel Giménez Cacho, Agnes Brekke, Jerónimo Barón, Constanza Gutierrez
  • Duração: 136 minutos

Cinema. Não existem O cinema. Existem Cinemas. E não obstante, existem cineastas que trazem suas denominações particulares, absorvidas dentro de uma estética com um código genial para alguns e enfadonho para outros. E está tudo bem. Formado em Belas Artes, “Joe” Apitchatpong Weerasethakul saiu de Khon Kaen e assombrou o mundo ocidental, colocando o cinema tailandês no mapa, ali – no começo do Século 20 – alguma incompreensão perpassou a mente de pessoas após as sessões de seus filmes. Tio Bonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas. Cemitério do Esplendor. Mal dos Trópicos. Síndromes e um Século. Todos parte de uma filmografia bastante heterogênea ainda que una, em aspectos filosóficos e diegéticos uma compreensão profunda sobre sua aldeia e o todo. Memória é mais uma peça da filmografia de Weerasethakul, que estreou em Cannes e agora na Mostra de SP.

Nele, Bogotá e seus arredores remetem a Tailândia natal do cineasta e a floresta simbólica e real está transmutada nas andanças e também no imaginário de Jessica (Tilda Swinton); ela é uma estrangeira vivendo na América do Sul com marido local, filhos e uma irmã, que está enferma. A câmera, a edição e o som memorizam a rotina e mimetizam os passos diários de Jessica entre as visitas hospitalares à irmã, a rotina doméstica, as saídas de casa, as andanças pela cidade e as ranhuras que começam a surgir em seu ciclo aparentemente constante, provocadas por uma divergência sonora – ela ouve um baque surdo, como se algo pesado e metálico despencasse de uma altura considerável.

Memória (2021), de Apichatpong Weerasethakul
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Cortesia Mostra SP

Conjunto da Profunda Ilusão

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Memória percorre o labirinto, os canais semicirculares e dá voltas no canal auditivo para ativar a sensorialidade da personagem de Tilda – totalmente entregue à experiência e sensação de vertigem – e a nossa; logo vai adicionando camadas à rotina, seja com novos eventos e personagens como a arqueóloga que trabalha no hospital-escola onde a irmã da Jessica está e que explica sobre a escavação de ossadas que datam de milhares de anos, intactas; ou do engenheiro de som, Hernan, que ajuda a tentar reconstruir e desvendar qual o significado daquele ruído sonoro que vem, logo quando o sono mais tranquilo também se aproxima.

A câmera e os enquadros escolhidos contemplam uma Colômbia rara, urbana e algo bucólica, não a que se acostuma a ver mesmo em alguns filmes colombianos tão dados à violência do tráfico. Há uma transição, não sem antes caber uma sequência interessante onde Jessica cruza por um restaurante “tipicamente chinês” em Bogotá e acha que está sendo perseguida por um cachorro ou sofrendo alucinações por conta da alta altitude da cidade, em que vai para o ambiente rural. Jessica e Hernan andam pela casa, se lembram da cama, do lençol azul, do som. O mesmo som que se repete. E para, morre. E depois dele, nada.
Ali, já cruzando os canais entre os idiomas espanhol e inglês, flutuando entre estar sonâmbula e desperta, espaço e tempo, Jessica tem a profunda compreensão de quem é e as pistas de Hernan só tornam suas suspeitas mais perenes: “eu sou um disco rígido enquanto você é uma antena e vai captando minhas lembranças.”

Memória (2021), de Apichatpong Weerasethakul
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Cortesia Mostra SP

Alucinante, magnânimo e com poderes curativos, o cinema de Apichatpong deve ser sorvido como um caldo portentoso de uma estética muito particular e com sabor bastante peculiar. Após uma exibição na Tate Gallery de Londres em 2018, ele mencionou como o “cinema é um escape”: como se criasse um refúgio dentro dos filmes, mixando elementos que parecem não conversar como a ficção científica e fantástica com as fascinantes histórias da tradição oral de seu país – muitas delas profundamente espirituais.

Como vai cruzando os elementos de suas obras pregressas, sutilmente desenhando seja os motivos do conjunto do aparelho de chá de Cemitério Esplendor na capa do sketchbook de Jessica, ou o banco de madeira perto do córrego em Mal dos Trópicos, Apichatpong nos brinda com fantasmagóticas evocações de uma América do Sul ou Sudeste da Ásia que datam cinco séculos atrás ou até de centenas de milhares de anos atrás, uma pedra que fazia parte de um rochedo muito antigo e ancestral, quando o dialeto que achamos que ouvimos falarem do lado de fora da casa é quéchua mas pode ser algo mais antigo ainda…Aquela sonoridade metálica, que gruda uma pergunta na memória: eram deuses os astronautas?

Um grande momento
Jesus e Salvador dali

[45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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