Crítica | Festival

O Buscador

Barracos e barrancos

(O Buscador, BRA, 2019)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Bernardo Barreto
  • Roteiro: Bernardo Barreto, Andrés Gelós, Luis E. Langlemey, Martín Preusche
  • Elenco: Monique Alfradique, José Araújo, Bernardo Barreto, Aiman Braga, Rod Carvalho, Erom Cordeiro, Gabriel Escopel da Silva, Debora Duboc
  • Duração: 88 minutos
  • Nota:

Com tanto cineasta acomodado (alguns pessimamente acomodados), dispostos a contar apenas os números que entram em milhões das bilheterias e do número de pagantes no cenário do cinema nacional, acho minimamente injusto apedrejar sem apurar uma proposta de tratar sua moldura sem a preguiça padrão que o cinema comercial costuma apresentar. Por isso, a estreia de Bernardo Barreto na direção em O Buscador me parece genuinamente disposta a sair da zona de conforto que sua narrativa poderia almejar. Porque não se engane, o título tem interesse em se comunicar com o público de fora da seara dos festivais, o que não é nenhum crime, nem a ele e nem ao Cine PE, que o selecionou.

Ao propor uma espécie de gigantesco plano-sequência que une espaços tão radicais de convivência, unindo núcleos em conflitos discrepantes entre si e fazendo desse todo uma ideia bem maior de realização, Barreto demonstra, acima de tudo, coragem para uma empreitada tão arriscada e ousada, além de não ligar para o olhar de desaprovação e escárnio que poderiam lançar sobre ele por esticar tanto as pernas logo na estreia. Com a empáfia da juventude, Barreto não ouviu ninguém e fez o filme que queria fazer, independente das acusações que com certeza virão, e essa coragem precisa ser aplaudida.

O Buscador

O filme parte de uma comunidade rural, sai de carro por uma estrada, invade uma casa de alguns andares, com quintal e piscina, além de manifestações políticas que acontecem em paralelo na porta da construção familiar, conjugando tantas possibilidades narrativas que, em meio ao excesso de camadas apresentadas, nem todas são contempladas, e o filme acaba abrindo buracos pela estrada do roteiro; em nome da proposta estética de estar sempre seguindo algum personagem, estamos constantemente em uma única ação, e acabamos perdendo todas as outras que se desenrolam em paralelo em meio ao inflado elenco.

Há uma ideia descontinuada a respeito da narrativa, que acaba expondo suas fragilidades mediante a tal ousadia da realização. É um preço que se pagou, valeu a pena? Barreto, na sua inexperiência e na ânsia de entregar um produto diferenciado, cumpre certas tabelas deixando outras desfalcadas, como o ditado “se cobrir o pé, descobre a cabeça, e vice-versa”. Acaba por alargar um escopo já grande de assuntos, temas e reflexões, de gênero, sociais, políticas, uma abrangência atual de inúmeras frentes que acabam se empilhando e não se costurando por completo, mostrando os pontos onde cada esforço se torna visível.

O Buscador

No agigantado elenco, não se sobressaem o núcleo de empregados negros que poderiam ter rendido bem mais (inclusive há ganchos para tal), assim como outros gatilhos que expõem e não se completam, como a relação entre Thiago e o filho pequeno, o assessor/advogado vivido pelo excelente Leonardo Netto, retirado às pressas de cena, e o aprofundamento do personagem de Bruno Ferrari. Ainda que seus personagens sejam exatamente tudo que imaginamos que eles seriam, não tendo qualquer novidade a apresentar em desenvolvimento de personagens, o elenco em si corresponde com firmeza quando exigidos, em especial Débora Duboc e Aline Fanju, duas grandes atrizes com grandes momentos, e Erom Cordeiro, pouco aproveitado mas que se esbalda com o tanto que lhe é servido.

Com um desfecho de clímax muito pouco crível (como um conflito termina quase em “shimbalaiê”, a entrada em cena de elementos externos impede o provável abraço coletivo que se seguiria), O Buscador tem um modo ingênuo de olhar para a realidade, que se distancia da visão nua e crua apresentada até então, além de esfregar na cara dos personagens cenas inteiras que não podiam ser presenciadas mas o são porque estão todos sempre muito colados uns aos outros, mas o esforço de realização do diretor acaba por mostrar que os problemas existem e nem são poucos, mas que são confrontados com uma vontade de ir além do diretor, e por fim mostrar serviço.

Um grande momento
Pelo buraco da fechadura

[24º Cine PE – Festival do Audiovisual]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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