- Gênero: Fantasia
- Direção: Julia Jackman
- Roteiro: Julia Jackman
- Elenco: Emma Corrin, Nicholas Galitzine, Maika Monroe, Charli XCX, Richard E. Grant, Felicity Jones
- Duração: 91 minutos
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Antes de chegar a Hero, é preciso voltar a Sherezade. Em As Mil e Uma Noites, contar histórias não é apenas um exercício estético-literário. É a única resposta possível a uma ameaça concreta. Diante de um rei que transforma o casamento em ritual de morte, Sherezade narra para interromper o desfecho. Cada história abre outra, cada noite adia a anterior, e o tempo passa a existir dentro dessa suspensão. O conto maravilhoso, nesse caso, deixa de ser fuga e vira estratégia.
A estrutura atravessa séculos e reaparece em diferentes formas, sempre associada a contextos em que a palavra se coloca como instrumento de sobrevivência. O que se preserva não é apenas o encadeamento de histórias, mas a relação entre quem narra e o poder que escuta. Narrar, aqui, implica disputar o tempo, reorganizar o que pode acontecer, interferir no destino.
100 Noites de Desejo, de Julia Jackman, retoma esse modelo a partir da graphic novel de Isabel Greenberg e o desloca para um universo que reconhece esse legado, mas tenta reformulá-lo. Cherry, vivida por Maika Monroe, ocupa um casamento em que sua posição já está definida. Quando o marido se ausenta, deixando-a sob vigilância de um visitante que aposta na sua queda, é Hero, interpretada por Emma Corrin, quem assume a função que antes cabia a Sherezade. Ela conta histórias. Cada noite depende disso.
O filme constrói esse universo assumindo o artifício. Os cenários não buscam ilusão, as cores se impõem e a encenação se aproxima do teatro. Há uma tentativa clara de organizar esse espaço como um território moldado pela narrativa, em que as histórias não apenas ocupam o tempo, mas definem o que pode acontecer dentro dele.
Essa proposta encontra apoio nas performances. Corrin trabalha Hero a partir de um controle preciso do tempo e da presença, como se cada gesto estivesse ligado ao ato de narrar. Monroe, por sua vez, constrói Cherry a partir de uma instabilidade que não se resolve, e é nessa diferença que o filme encontra seus momentos mais interessantes. Quando as duas se aproximam, a narrativa deixa de ser apenas estrutura e passa a ter efeito.ǰ
O problema aparece quando o filme precisa sustentar essa lógica ao longo das histórias. Diferente de Sherezade, cujas narrativas transformam progressivamente o olhar de quem escuta, aqui as histórias se sucedem sem produzir deslocamentos significativos. Elas ocupam o espaço, mas raramente o alteram. Falta a sensação de que cada nova noite modifica a anterior.
Há uma tentativa de inscrever essa reconfiguração dentro de um campo feminista e queer, reorganizando o lugar do desejo e as relações de poder. Essa intenção está presente desde a estrutura até a escolha das personagens, mas nem sempre se converte em experiência. O que deveria se manifestar nas ações e nas relações permanece, em muitos momentos, no nível da formulação.
Esse descompasso afeta diretamente a força do filme. 100 Nights of Hero entende o que está em jogo ao recorrer a esse modelo narrativo, reconhece sua origem e propõe um deslocamento, mas encontra dificuldade em fazer com que esse deslocamento se sustente.
Ao retornar a As Mil e Uma Noites, fica claro que o que permanece não é apenas a estrutura, mas a urgência que a sustenta. Narrar, ali, é uma questão de vida. Aqui, essa urgência aparece como ideia, mas raramente se impõe como experiência.
E talvez seja nessa diferença que o filme se define. Não pela ausência de histórias, mas pela dificuldade de fazer com que elas tenham peso suficiente para alterar o que as cerca.
Um grande momento
Ele não resiste ao conto


