Crítica | Outras metragens

Pássaro Memória

Ser parte da História

(Pássaro Memória, GBR, BRA, 2023)
Nota  
  • Gênero: Ficção
  • Direção: Leonardo Martinelli
  • Roteiro: Leonardo Martinelli
  • Elenco: Ayla Gabriela, Henrique Bulhões, Jard Costa, Kley Hudson
  • Duração: 15 minutos

Memória é uma marianinha-de-cabeça-amarela que sumiu e não voltou para casa. Em uma longa busca, sua dona, uma mulher trans preta, procura por ela. Pássaro Memória (A Bird Called Memory), o novo curta de Leonardo Martinelli (Fantasma Neon), tem um tom contemplativo e melancólico. Mais uma vez, personagens e cidade se encontram em uma relação profunda, como elementos que cruzam no cotidiano, e se entregam de maneira unilateral a essa convivência.

Há todo um jogo com o nome do pássaro, com o entendimento da dinâmica espacial e do acolhimento, com a vontade de esquecer, com o ser esquecido ou com a realidade atual da impossibilidade de ser lembrado pelo apagamento e por todo o movimento de fazer não existir. Ao falar em memória, se pensa na partida, aqui, na facilidade do ir e na dificuldade de voltar, isso quando esse ir não é o mais violento e o voltar se torne impossível. Se pensa também em quem fica, no micro, naquilo que estará sempre presente naqueles que estão próximos, mas não estará no macro, naquilo que estará lá fora. 

Em um momento de sua busca a dona da Memória encontra um homem trans e eles conversam sobre a memória, a cidade e realismo. As palavras vão sendo ilustradas por uma cidade gigante, fria e vazia; bela e fantasmagórica. O caminhar daquela mulher em edificações gigantescas – e elas são lugares específicos: a universidade, a assembléia legislativa – é tão solitário que chega a ser opressor. “São lugares difíceis de alcançar”, diz. 

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No jogo das imagens Matinelli consegue representar o deslocamento que impedem a memória. O tom de fantasia já domina a narrativa, mas ele rompe ainda mais com o que apresentara ao a trazer o musical, já citado pela personagem, à cena. Existe uma pequena incoerência pela falta de naturalidade com que isso acontece, uma vez que a virada é explícita, mas é algo que se normaliza na cena de conexão com a abertura do filme. Bonito e Tocante, Pássaro Memória é um filme que fica.

Um grande momento
“Será que um dia a Memória vai pousar em uma estátua de gente como a gente”

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, Critics Choice Association, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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