Crítica | Festival

Peter Von Kant

Me chame pelo seu nome

(Peter von Kant, FRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: François Ozon
  • Roteiro: François Ozon
  • Elenco: Denis Menochet, Isabelle Adjani, Khalil Ben Gharbia, Stefan Crepon, Aminthe Audiard, Hannah Schygulla
  • Duração: 85 minutos

O início da carreira de François Ozon já motivou um primeiro encontro com Rainer Werner Fassbinder. Depois de uma década de curtas metragens, o mais prolífico diretor francês dos últimos anos entregou em seu segundo longa Gotas D’Água em Pedras Escaldantes uma adaptação de uma peça de seu colega alemão, um de seus trabalhos mais marcantes, a um ponto de sua carreira familiarizar com a do autor morto jovem, aos 37 anos. Seu mais novo filme, Peter Von Kant, é uma revisão de As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant, talvez a obra de Fassbinder mais reconhecida pelo público brasileiro. Não se trata apenas de uma nova versão, mas de uma ressignificação da obra original, a partir do momento em que o sexo do trio central protagonista foi modificado. As inquietações, no entanto, precisam permanecer intactas justamente porque são duas carreiras em constante conexão. 

A adaptação foi feita de maneira solitária, sem o habitual parceiro Eric Altmayer, e prova como Ozon está comprometido com a obra de Fassbinder, e não apenas essa em particular. Sem querer comparar seus estilos e talentos, mas Ozon parece sim admirar e perseguir sim a obra do alemão, com referências diretas e indiretas, por tantas vezes. Aqui, como no filme de 1999, ele não apenas utiliza seu apreço particular, como insiste em criar uma tonalidade que os aproxime, e aqui em especial esse esforço cabe, e é recompensado. Com uma carreira tão vasta, aqui estamos diante de mais um respiro diante de um momento de mesmice que ele traduz de maneira inquietante, trazendo o cineasta falecido há 40 anos de volta desde seus créditos, com uma foto explícita de seu muso. 

Até pela constância de lançamentos, a carreira do francês é irregular. Mas aqui ele se sai melhor que em sua pedida recente (Está Tudo Bem), onde ele tentava tirar o peso e a dramaticidade excessiva de um melodrama, ou seja, como tirar a gordura do bacon. Peter Von Kant é, por incrível que pareça, um atestado de independência e autoralidade maior do que sua obra anterior, que era original. Além de tudo, ainda há segurança no manejo das emoções ali trabalhadas, todas muito explosivas e derramadas, algumas em registro de um exagero controlado. Fassbinder sai intacto desse novo encontro, mas é justamente Ozon quem reaparece rejuvenescido ao se debruçar mais uma vez sobre um mestre, que fez da inadequação de seus tipos e dos sentimentos que eles alimentam uma fonte que segue jorrando constantemente. 

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Sendo assim, uma adaptação de imagens e diálogos de sua espécie de mentor emocional, com sua imagem sendo reproduzida na abertura, então que Ozon se esbalde em cores e tensões próximas aos de seu ídolo, é não apenas esperado, mas o acertado a ser feito. Os enquadramentos, tantos os raros externos quanto os internos, a cena final do telefonema que remete diretamente a Querelle em sua concepção (apesar da neve), a citação a O Direito do Mais Forte, a efervescência da tonalidade e dos figurinos – ou ausência de. Para fãs de Fassbinder, o filme é mais do que uma adaptação de sua obra, mas um mergulho em seu universo, um fascinante passeio por um arsenal de easter eggs, praticamente um ‘Detona Ralph’ para adultos. É delicioso encontrar referências a pôsters seus, a fotos suas reproduzidas em memorabilia, em respirar de novo o universo que ele nos ofertou. O ator Stefan Crepon, em mergulho absoluto na alma de Fassbinder, reproduz em corpo, rosto e imagem tudo o que o diretor mais fortemente representou em ideais – a subserviência cega, a paixão desmedida, o rigor disforme e a ambivalência de sentimentos. 

Pode ser, inclusive, que em sua tentativa de reproduzir a aura e os sentidos do diretor, Ozon tenha ido mais fundo e feito uma homenagem à vida dele, principalmente ao trocar o protagonismo de feminino para masculino, e colocar em cena a Hannah Schygulla que foi fetiche do diretor, e que esteve em Petra como a jovem, hoje vivida pelo promissor Khalil Ben Gharbia. Esse encontro do passado com um presente, que ao mesmo tempo evoca o mesmo passado e seus signos, promove em Peter Von Kant um jogo de retrocesso para evocar o futuro, uma brincadeira sadia para cinéfilo mergulhar e sair mais intoxicado de cinema. Anteriormente em longas como Frantz e Dentro da Casa, o diretor já teria brincado com as possibilidades infinitas da metalinguagem, aqui ele retoma isso bebendo em fonte preciosa. 

Em sua nova visão sobre relações humanas codependentes (uma base forte de sua filmografia) e a obsessão que se adquire através dessa intersecção, Ozon conecta com sapiência dois de seus delírios para encontrar uma fortaleza para sua obra. A segurança em revisitar Fassbinder é a mesma do cuidado com os símbolos que ele vestiu em toda sua carreira, e esse encontro mais uma vez o torna independente. Com o auxílio da inebriante interpretação de Denis Menochet (de Custódia), que constantemente entrega uma nova camada de brilho à própria carreira e aqui simplesmente nos desarma com tamanha paixão e entusiasmo, Ozon e seu Peter Von Kant chegam próximo a essência da homenagem. 

Um grande momento
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[Festival Varilux de Cinema Francês 2022]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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