Crítica | Festival

Poser

Os que fingem ser

(Poser, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Noah Dixon, Ori Segev
  • Roteiro: Noah Dixon
  • Elenco: Sylvie Mix, Bobbi Kitten, Aujolie Baker, Angela Jernigan, Drew Johnson, Rachel Keefe, Ariel Peguero, Danielle Samson, Nick Samson, Abdul Seidu, Sean Taylor, Jordan Unverferth
  • Duração: 87 minutos

Poser s2g. Pessoa que finge ser algo que não é, ser parte de uma cultura ou de um gênero do qual não faz parte

Nesse vaguear pelo mundo, tentando encontrar o seu lugar, é comum que se tente encaixar em algum grupo. Há uma fase da vida em que todos fazem isso e há quem faça isso por toda a vida. Mas é estranho quando isso é feito por caminhos completamente antinaturais. Além da imitação: vestir as mesmas roupas, frequentar os mesmos lugares, ouvir as mesmas músicas ou falar do mesmo jeito, está o querer transformar-se em outra pessoa. Ser exatamente igual. Numa obsessão patológica.

Mesmo que não se identifique de pronto, esta é a condição doentia de Lennon, uma jovem retraída que não sabe lidar com as próprias emoções e, consequentemente, com a sociedade. Ela é a protagonista de Poser, dirigido por Noah Dixon e Ori Segev, personagem construída de maneira dúbia, que ao mesmo tempo em que nos traz para o seu lado, com sua timidez e tentativas de aproximação, nos repele com seus atos esquisitos e reprováveis. Essa dubiedade já vem na apresentação, da legitimidade da intenção ao uso do que não a pertence.

O universo em que Lennon quer ingressar e aquele ao qual finge pertencer é o da música underground estadunidense. Seu projeto de podcast nos leva ao mergulho em um mundo curioso que mistura inserções documentais, onde os músicos falam de criação e demonstram suas músicas — e tem muita, com Son of Dribble, Devin Summers, wyd e outros — e ficção, em uma história que traz um outro nome bem conhecido: Damn the Witch Siren, banda que tem no visual um de seus pontos fortes. Sua vocalista, Bobbi Kitten é, por fim, o motivo de tudo. A entrada dela e Z Wolf em cena ao som de “Claire Danes”, como não poderia deixar de ser, é impactante e, de certo modo, explica a fixação.

Poser (2021)

No nosso imaginário cinéfilo, pós-1990, os filmes de obsessão adquiriram uma certa formatação e uma expectativa. Em Poser, isso consegue ser ressignificado. Mesmo que Lennon traga os traços de retração, a forma de conquista de seu objeto de desejo siga a cartilha tradicional e ainda haja a confusão dos sentimentos, que fazem com que o espectador enxergue uma conexão mais próxima da paixão, Dixon e Segev trilham um caminho diferente ao descolar os caminhos de Kitten e da protagonista, fazendo com que esta invista no interesse e não na replicação.

Na história dividida em capítulos, que observa a obsessiva tão de perto e, aos poucos, explicita sua maneira de agir ao mesmo tempo em que constrói sua falsa imagem-colagem roubada em um universo múltiplo, o interesse está na falsificação para a validação. Lennon, mais do que alguém que quer ser Kitten, é alguém que quer pertencer a algum lugar que não seja a cozinha do restaurante onde trabalha e onde ninguém a olha, quer ser mais do que aquela pessoa que chega nos lugares e não consegue fazer mais do que ficar em um canto com os seus fones de ouvido, que saber falar sobre arte, rimar, compor, cantar.

Ela é um clássico dos perdedores, um clássico dos excluídos, e só na mentira encontra um jeito de se afirmar. Lennon vai trilhando o seu caminho torto e os diretores não só deixam que a gente acompanhe isso, como fazem com que a gente se aproxime dela, de certo modo, crie uma empatia e pare para pensar. Existem pessoas no nosso círculo profissional que vimos fazer isso e estão aí brilhando e lucrando com aquilo que era dos outros? Que, por terem um jeito assim ou assado, hoje ocupam lugares por terem se aproveitado de outras pessoas?

Com uma história simples, que visualmente mistura videoclipe, entrevistas e encenações a filmagens amadoras e criações elaboradas, e traz personagens interessantes, Poser é um filme que sai do mais despretensioso thriller inesperado para chegar ao nosso cotidiano. Uma experiência curiosa, que pode se descompassar no final, mas trilha um caminho bem interessante para chegar até ali.

Um Grande Momento
“Claire Danes”

[2021 Tribeca Film Festival]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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