Crítica | Festival

Agnes

A coragem de não acreditar

(Agnes, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Mickey Reece
  • Roteiro: Mickey Reece, John Selvidge
  • Elenco: Molly C. Quinn, Sean Gunn, Hayley McFarland, Chris Browning, Rachel True, Jake Horowitz, Zandy Hartig, Heather Siess, Ben Hall, Bruce Davis, Ginger Gilmartin, Mary Buss
  • Duração: 93 minutos

“Que ao findar vai dar em nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada do que pensava encontrar”. Foi Gilberto Gil quem disse isso, mas vários outros já falaram o mesmo, na música, pintura ou literatura, quando a questão era a fé, o encontro ou o diálogo com Deus. Comédia escrachada, drama filosófico, terror psicológico, não importa o gênero, o tema volta e meia está também nas telas de cinema e Agnes é mais um exemplar inusitado dessa tentativa de contato, ou melhor, de entendimento do mistério. Com uma estrutura nada convencional, o filme vai procurar na igreja católica a explicação para a fé nesta entidade suprema que é Deus, mas trazendo questões que estão muito mais atreladas à estrutura do que à divindade, ao íntimo do que ao divino.

Dirigido por Mickey Reece, o longa-metragem na verdade são dois filmes completamente diferentes unidos em um só. O primeiro é um surreal terror cômico de exorcismo. Nele acompanhamos toda a situação da freira que dá nome ao filme e, tomada pelo demônio, é sujeita a sessões com padres enviados ao seu convento para livrá-la do mal. O roteiro, uma parceria entre o diretor e John Selvidge, faz humor com os dogmas do lugar e com tradições católicas, além de trazer à tona questões — algumas bastante terríveis — que há anos assombram a instituição. São personagens interessantes, como o cínico padre Donaghue vivido por Ben Hall, e seus diálogos curiosos sobre a manutenção de aparências e uma certa consciência da prescindibilidade.

Agnes (2021)

Se o poder carcomido da igreja está em boa parte de sua fala, quando reconhece a fé numa posição superior, ou quando se demonstra o quanto as determinações católicas são arcaicas, a questão da mulher ganha uma atenção especial, ainda que bastante contaminada, mas de louvável tentativa, em outros momentos e outras situações. Se o humor consciente está na maior parte, há espaço também para aquele descompromissado, que vai rir de tudo pelo simples prazer da risada solta e que chega num simples caminhar pelo corredor rumo ao perigo ou numa inusitada entrevista de televisão que interrompe o filme quase sem pedir licença, e apresenta talvez mais divertida experiência de um padre exorcista.

É justamente no exorcismo que Agnes começa a se transformar, virar o segundo filme. Enquanto as palavras “salvadoras” de unção são proferidas, uma consciência se estabelece naquela que se torna a protagonista do filme, Mary. Com inserções em flash foward, a comédia sai de cena para dar espaço ao drama. Nem mesmo aqueles que são profissionais do gênero, e eles são colocados ali de propósito, conseguem fazer rir a partir daí. A virada, cheia de significado e que pode ser interpretada de várias maneiras, inclusive algumas nem tão boas assim, faz o roteiro explorar um mundo de opressão, capitalismo e machismo e mergulhar numa jornada introspectiva, onde a realidade do luto se mostra de uma maneira incisiva e, pode-se dizer, tem o mesmo poder de “ocupação” que se vira até ali.

Agnes (2021)

A ideia por trás de Agnes é muito interessante, mesmo. Porém, falta braço a Reece para sustentar a mudança entre as duas partes, ou entre seus dois filmes. Embora conte com um bom elenco — Molly C. Quinn (que esteve muito tempo na TV como a filha do Castle) é uma escolha interessante para a plácida e angelical Mary, com tudo aquilo que traz dentro de si e não pode externar — e saiba criar ambientes, em nenhum momento os espectadores se sentem conectados novamente como aconteceu antes. Mesmo que os eventos pareçam ter mais apelo sentimental, eles não têm poder de convencimento. É tudo distante e alheio.

Mas o filme tem uma ousadia, uma tentativa de fazer algo diferente que não pode ser ignorada. Só por querer construir essas duas realidades e ligá-las, em uma personagem, por um ritual exorcista, já mereceria uma olhada. Ainda que não se sustente, e acabe titubeando na hora de contrariar aquilo que questiona, tem uma mensagem interessante por detrás de tudo. Agnes fala de fé e de igreja, mas fala também da impossibilidade da fuga dos nossos próprios demônios.

Um grande momento
Caminhando ao encontro de Agnes

Fotos: Stephan Sutor

[2021 Tribeca Film Festival]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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