Crítica | Festival

The Worst Person in the World

(Verdens verste menneske, NOR, FRA, SWE, DEN, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Joachim Trier
  • Roteiro: Joachim Trier, Eskil Vogt
  • Elenco: Renate Reinsve, Anders Danielsen Lie, Maria Grazia Di Meo, Herbert Nordrum, Hans Olav Brenner, Helene Bjørneby, Sofia Schandy Bloch
  • Duração: 127 minutos

A primeira regra sobre construção de personagem pontificada em qualquer aula de roteiro é: você precisar saber o que ele ou ela quer. Todo personagem, especialmente principal, tem um objetivo. E The Worst Person in the World é mais uma prova de que regras existem para serem quebradas. Porque sua protagonista Julie (Renata Reinsve, Palma de melhor atriz em Cannes) não sabe exatamente o que quer. E talvez nem ao final ela descubra isso totalmente.

Julie é um exemplo clássico da geração de millenials tardios e/ou Z, que sofre com o excesso de escolhas à sua disposição. Ela pode estar na melhor festa, com as melhores companhias e, ao ver uma foto qualquer no Instagram, sente a angústia de que alguém está mais feliz que ela, melhor que ela, divertindo-se mais. Pode estar em um relacionamento estável, com uma ótima pessoa, mas… o Tinder parece tão legal, não?

Nossos avós foram criados para casar-se com alguém e passar o resto da vida junto daquela pessoa, não importa o que aconteça. Nós fomos criados para “sermos felizes”. Com essa vaga e intangível noção em mente, a protagonista parece estar sempre mudando de ideia, sempre olhando para algo que não está totalmente ali, sem saber direito o que quer… o que pode fazer dela uma personagem pouco tradicional, nem sempre fácil de simpatizar – mas ela nunca desiste de seguir buscando. E é isso que a torna tão autêntica e cativante.

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The Worst Person in the World
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema © Oslo Pictures

Numa guinada bastante inesperada de estilo, o cineasta dinamarquês Joachim Trier (Oslo, 31 de Agosto, Thelma, Mais Forte que Bombas) estrutura essa odisseia pequeno-burguesa, bastante branca e privilegiada, de Julie em “12 capítulos, um prólogo e um epílogo”, que seguem a protagonista após ela abandonar algumas faculdades, tornar-se uma aspirante à fotógrafa e ir morar com o namorado, o cartunista Aksel (Anders Danielsen Lie), enquanto trabalha em uma livraria. Ele é mais velho e mais bem-sucedido que ela, quer ter filhos, Julie não. E ao invadir uma festa alheia impulsivamente, a jovem personagem vive uma comédia romântica de uma noite com o desconhecido Eivind (Herbert Nordrum) – e passa a questionar sua estabilidade monótona e conformada com Aksel.

Apesar da sinopse, The Worst Person in the World é menos uma comédia romântica do que uma comédia antirromântica. No sentido de que os rapazes servem para ajudar Julie a descobrir o que ela não quer, mas eles nunca são a resposta que ela busca. Porque o que a protagonista precisa é desvendar, solucionar, quem ela é – e isso ninguém responde pela gente.

Com Aksel e Eivind, Julie está sempre se definindo em relação a seu parceiro. E Trier sugere isso visualmente de maneira muito sutil: perceba como o apartamento de Aksel é grande, agradável e elegante, mas tem a cara dele, e Julie é sempre enquadrada meio à margem, de lado, nunca no centro do quadro, uma “coadjuvante numa história alheia, como ela mesmo define. Já quando vai morar com Eivind, o apartamento é menor, um pouco mais a cara dos dois e aconchegante – até o momento em que a protagonista começa a sentir que ele pode ser pequeno demais para suas aspirações.

The Worst Person in the World
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema © Oslo Pictures

Ainda assim, os dois nunca são meras “ferramentas” na jornada de Julie. O roteiro é extremamente generoso com seus três personagens, que machucam e são machucados em igual medida – sendo irresponsáveis, afetuosos e imperfeitos de maneiras diferentes. Aksel é paternalista e condescendente, mas é dele talvez o sentimento mais genuíno e sólido do filme; Eivind é doce, amável e simples, mas até demais; e Julie… bem, Julie pode ser a pior pessoa do mundo, cruel, egocêntrica, mal-resolvida – mas só porque tem que “ser feliz” (foi o que a Xuxa mandou quando éramos crianças). Não por acaso, é só mais próximo ao final, quando a protagonista permite que seu mundo deixe de girar em torno dela, e passa a se preocupar mais com outra pessoa, e um pouco menos consigo mesma, que ela começa a entender um bocado melhor quem realmente quer ser.  

É essa riqueza quase literária do roteiro, reforçada pela esparsa narração em off e pela divisão em capítulos, somada às excelentes atuações e a uma direção que sabe brincar com as afetações do gênero, mas sem jamais recorrer a respostas ou soluções fáceis, que tornam o longa de Trier tão satisfatório. Ao permitir a uma personagem feminina as mesmas incertezas, idiossincrasias e imperfeições historicamente reservadas aos Woody Allens da vida (mostrando que assim como Alanis e Nina Persson as mulheres no cinema também “live and learn”), o cineasta prova que ainda é possível criar obras interessantes e divertidas sobre white people problems e, de quebra, nos faz sentir um pouco menos culpados por, às vezes, sermos as piores pessoas do mundo.

Um grande momento
A minicomédia romântica do segundo capítulo… ou a conversa de Julie e Aksel sentados em uma mesa, sob uma árvore, quase no final.

O crítico viajou a convite da 66ª Semana Internacional de Cine de Valladolid

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Daniel Oliveira

Daniel Oliveira é mestrando em Cinema pela Universidade da Beira Interior e crítico autoexilado, filiado à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e à Fipresci. Aguarda ansiosamente o meteoro, ou o reboot da civilização dirigido por alguém que não seja homem, branco e/ou hétero.
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