Crítica | Festival

Um Animal Amarelo

(Um Animal Amarelo, BRA, POR, 2020)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Felipe Bragança
  • Roteiro: Felipe Bragança, João Nicolau
  • Elenco: Higor Campagnaro, Isabel Zuaa, Tainá Medina, Catarina Wallenstein, Matamba Joaquim, Lucília Raimundo, Diogo Dória, Adriano Luz, Herson Capri, Thiago Lacerda, Sophie Charlote, Márcio Vito, Matheus Macena, Digão Ribeiro
  • Duração: 115 minutos
  • Nota:

Se há um nome que hoje se destaca no cinema brasileiro quando se pensa em fabulação fantástica é o do diretor Felipe Bragança. Sua trajetória na direção, que começou com A Fuga, a Raiva, a Dança, a Bunda, a Boca, a Calma, a Vida da Mulher Gorila, está sempre buscando no encantado, por mais terreno e óbvio que seja o tema, uma forma para construir. Um Animal Amarelo, seu mais recente filme, não foge à regra e encontra no irreal um lugar para falar da real, presente e inescapável culpa em um país construído sobre a dominação e morte de povos.

Animal Amarelo conta a história de Fernando, um cineasta ridiculamente desengonçado e azarado, que parte em busca do passado, enlouquecido como o avô por histórias de ócio, sucesso e riqueza. Construído em camadas e sob uma onipresença coerente da narração, o trajeto se encontra na metalinguagem e na voz de Isabél Zuaa que direciona o filme do filme da vontade de fazer o filme. Na ruptura, uma sucessão de eventos aleatórios e inesperados encontra o seu conforto. Muito por seu elenco afinado, encabeçado por Higor Campagnaro, que já trabalhou com Bragança em Tragam-me a Cabeça de Carmem M., codirigido e encenado pela gaja sem coração Catarina Wallenstein, e com uma incrível Zuaa.

Um Animal Amarelo

A estética do irreal é bem marcada na primeira parte do filme, e não apenas pelo animal amarelo que o dá nome e suas aparições a la Apichatpong ou em stop motion, mas também pelas quebras, centralização de planos, brincadeiras com cores e marcação cênica. Em determinado ponto, em terras moçambicanas, desacelera e se entrega a algo visualmente bem menos fantasioso, embora o inesperado siga no texto e no humor pontual. A reversão constante, porém, deixa de surpreender uma vez que sempre acontece. Ainda assim, o trabalho de Bragança, também roteirista do longa com a colaboração de João Nicolau (John From), nessa fabulação que transmuta uma história que o atordoa, é original e instigante.

Falta, como em boa parte dos filmes do diretor, um equilíbrio no ritmo. É como se o longa tivesse que sobreviver a várias barrigas no meio do caminho, falhando no tom, excedendo-se na trilha, perdendo boa parte do interesse em suas alegorias, cansando. Por mais que pela fábula se aproxime da história de todos nós, Bragança crê que precisa ser literal, e o é, seja no off sempre presente, mas nem sempre necessário, ou na descrição detalhada de Luíza sobre a atual situação do Brasil. É uma incoerência com a criação fantástica que não faz bem à obra.

Felipe Bragança

Outro incômodo está no modo como ele se aproxima das personagens femininas dentro de sua narrativas em camadas. Se há toda uma preocupação em assumir a culpa e a não solução de problemas ancestrais, a questão da mulher não parece ainda ter sido realizada, seja no abordar personalidades ou na exposição de seus corpos. É um uso – sim, a palavra é essa mesmo – para satisfazer a intenção estética do diretor, um outro ponto importante na filmografia de Bragança, já que por muitas vezes ele se perde justamente por querer colocar em um único filme tudo aquilo que acha belo, mesmo que isso não encontre um espaço na narrativa da vez.

Mas Um Animal Amarelo tem força em sua tentativa de compreender o que é a vaziez de um povo que, embora busque, não encontra identificação; ou a presença de anos e anos de crueldade e vilania por parte da branquitude nacional que, ou sente culpa ou sente representação no ódio. O longa conversa tematicamente com outro também exibido este ano no Festival de Gramado, Todos os Mortos, dirigido por Caetano Gotardo e Marco Dutra. Em ambos, o racismo de antes e de hoje está em tela, mas se havia uma certa covardia no longa da dupla paulistana, Bragança pelo menos assume o risco. Não é completamente bem sucedido, mas a coragem faz a diferença.

Um grande momento
Eu te digo em um sussurro.

[48º Festival de Gramado]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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