Festival de Brasília

Vaias e gritos contra a censura marcam abertura do festival

A primeira noite do 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro foi tumultuada marcada por muitas vaias ao secretário de Cultura, Adão Cândido. Assim que chamado ao palco pela apresentadora Maria Paula, o representante do governo foi recebido com um coro de “fora, Adão”, mas não parou de falar e fez questão de manter uma postura de enfrentamento diante do público que não parou mais de protestar.

Após a apresentação do filme de abertura, a biografia de Tommaso Buscetta dirigida por Marco Bellocchio, o ator Marcelo Pelucio, de cima do palco, pediu licença para ler uma carta. Enquanto lia, um segurança do evento subiu ao palco para retirá-lo, mas ele continuou a leitura até que cortaram o seu microfone, sem que ele conseguisse chegar ao final da carta.

A repercussão da péssima escolha do festival de não permitir que a carta fosse completamente lida indignou a plateia que lotava o cinema. Gritos contra o ato de censura, que impediu uma manifestação pacífica, tomaram conta da noite, mesmo com todas as tentativas da apresentadora em acalmar os ânimos, e só pararam depois de muito tempo.

A carta, em defesa da manutenção da Lei Orgânica da Cultura (LOC) e de mecanismos como a Lei de Incentivo à Cultura (LIC) e o Fundo de Apoio à Cultura (FAC), citou pontos que ameaçam a cultura do Distrito Federal. Entre eles estão “descumprimento e total falta de respeito no trato de políticas públicas construídas ao longo de 20 anos junto a sociedade e regulamentadas pela LOC; paralisia total e injustificável da LIC, que terá a menor execução desde a sua criação; não lançamento do Edital do Audiovisual em 2019; e a menor execução do FAC desde 2010.

Resistência

Entre as homenagens da noite, o prêmio da Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo (ABCV) foi entregue à documentarista Débora Diniz pela presidente da entidade, Daniela Moreno, e por Luciana Brito, representando o Instituto Anis, que também destacaram o não lançamento do edital FAC Audiovisual 2019, bem como o desrespeito a LOC, além de lamentar a saída da Câmara Legislativa da Mostra Brasília.

Ao falar sobre a homenageada, antropóloga e professora da UnB, Daniela destacou o trabalho da documentarista permeado por sua pesquisa em direitos humanos, gênero e bioética. “Seus nove documentários retratam a realidade de pessoas comuns que vivem a violação de seus direitos. É o caso de Severina Maria Leôncio Ferreira, obrigada a manter-se grávida, contra a sua vontade, de um feto que não sobreviveria ao parto. Ou então, a história de Antônio Carlos Santana e a condenação ao abandono num manicômio judicial”.

Daniela destacou o exílio de Débora, depois de ameaças de morte por conta do seu trabalho em defesa da descriminalização do aborto. “Mas resistência não tem fronteiras: ninguém vai calar a voz dessa mulher. Ninguém vai interromper a sua luta”, completou. A documentarista não pode estar presente na homenagem, mas gravou um vídeo para o festival. Nele fala sobre a emoção de ser lembrada, principalmente em um momento como esse.

Redação

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