Crítica | Festival

Cavalo

(Cavalo, BRA, 2020)

  • Gênero: Experimental
  • Direção: Rafhael Barbosa e Werner Salles Bagetti
  • Roteiro: Rafhael Barbosa e Werner Salles Bagetti
  • Elenco: Alexandrea Constantino , Evez Roc, Joelma Ferreira, Leide Serafim Olodum Leonardo Doullennerr, Roberto Maxwell e Sara de Oliveira
  • Duração: 85 minutos
  • Nota:

A dança é manifestadamente pedagógica ou “filosófica”, no sentido de que expõe ou comunica um saber ao qual devem estar sensíveis as gerações presentes e futuras. Incitando o corpo a vibrar ao ritmo do cosmos, provocando nele uma abertura para o advento da divindade, a dança enseja uma meditação, que implica ao mesmo tempo corpo e espírito, sobre o ser do grupo e do indivíduo, sobre arquiteturas essenciais da condição humana.

Muniz Sodré

A busca pela ancestralidade tem várias formas. Uma delas é a corporal e é justamente nesta que Cavalo está interessado. Os diretores Rafhael Barbosa e Werner Salles procuram nos movimentos de dança encontrar o resgate de uma conexão que parece perdida mas está em cada um dos corpos que examinam e acompanham.

O filme parte da história da criação do homem pelo poderoso Oxalá, primeiro filho de Olorum. Nesse universo místico de lendas e orixás, destaca a importância do corpo, elemento aberto ao metafísico. Alternando entre documentário e ficção, o longa ora é literal na exposição do cavalo que lhe dá nome, ora é sensorial nesse encontro entre o palpável e o intangível.

Cavalo, de Raphael Barbosa e Werner Salles

A elaboração estéticas das cenas performáticas – naquela conotação do corpo como arma de demarcação e ocupação tão em voga no cinema atual – contrasta com o afastamento das entrevistas. É como se o próprio filme se encontrasse mais confortável na exposição gráfica e menos na palavra dita. A coerência com a proposta, que eleva o corpo ao ponto mais alto, porém, compromete um pouco o ritmo do conjunto da obra.

Porém, a quebra consegue ser amenizada a cada nova construção. O mergulho nos reencontros é magnético, extasiante. O tempo, por mais dilatado que seja, é coerente com o alcance que representa. Desde o recontar elaborado da criação até a conexão plena com o astral que encerra o filme, toda a costura dos diretores com reflexos e luzes, ou até mesmo em momentos literais, como o ter os pés fincados terra, tem um sentido que vai para além da imagem.

Cavalo, de Raphael Barbosa e Werner Salles

Ainda assim, Cavalo não deixa de ser uma construção entrecortada e pouco estável. Tem elaborações muito boas, mas por vezes parece não acreditar na própria força que tem. Embora invista – e acerte – no corporal, não acredita que só ele seja capaz de dizer tudo. Seria até uma abordagem interessante passear entre formas de expressão, se isso fosse feito de maneira mais cautelosa e equilibrada, o que não é o caso. A falta de amarração com todos os caminhos que quer seguir é uma questão, sem dúvida.

Mas é um bom filme, com uma mensagem poderosa. Tem os seus percalços, é verdade, mas vale por toda a reconstrução e reconexão que elabora e por tratar os corpos com todo o respeito que eles merecem. Só essa aproximação metafísica às religiões de matrizes africanas, em especial ao candomblé, que enxerga o corpo e a dança como pontos de conexão entre o natural e o sobrenatural, já tem muito a dizer e a mostrar.

Um grande momento
Dançando na chuva

[4º Festival Ecrã]

Alexandrea Constantino , Evez Roc, Joelma Ferreira, Leide Serafim Olodum Leonardo Doullennerr, Roberto Maxwell e Sara de Oliveira Rafhael Barbosa e Werner Salles Bagetti

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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