Crítica | Festival

Cryptozoo

Psicodelia mítica antimilitar

(Cryptozoo, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Animação
  • Direção: Dash Shaw
  • Roteiro: Dash Shaw
  • Duração: 95 minutos

Unicórnio, kraken, chupacabra, monstro do lago Ness, pé grande, ahuízotl, yeti, dingonek, baku, mapinguari, bunyip, dobhar-chú, iemisch, dragão… eu poderia ficar horas e horas — ou melhor, linhas e linhas — citando criptídeos para vocês. Muitos são velhos conhecidos, alguns têm imagem e história familiar, mas nome, nem tanto, de outros pouco se ouviu falar. Fato é que todos nós conhecemos, soubemos ou já ficamos sabendo de alguma dessas criaturas e, possivelmente, das jornadas incríveis que alguns homens empreenderam para provar sua existência. Sim, existe mesmo um estudo desses animais lendários e mitológicos, obviamente não aceito pela ciência e a animação Cryptozoo parte deste lugar para criar a sua viagem psicodélica.

Na colorida e inusitada animação de Dash Shaw e Jane Samborski, a metáfora de um mundo dividido entre a intolerância e a liberdade está no universo dos criptídeos. De volta aos anos 1960, numa realidade improvável, mas ainda extremamente capitalista, as lendas provaram-se e estavam prontas para virar dinheiro. O lugar é descoberto pelo público junto com as desventuras de um casal chapado de hippies, em uma jornada que parece nunca tirar o pé do acelerador e nem se descolar da estética alucinógena de seu tempo, com muitas referências lisérgicas pelo caminho.

Ainda que a trama não seja das mais elaboradas, Cryptozoo tem elementos interessantes. Um deles está naquilo que está por trás das obviedades temáticas, como o cuidado com o meio ambiente. O filme fala disso, mas fala muito mais de minorias e pautas identitárias. O caminho, por exemplo, é determinado por duas mulheres com relações distintas com aquele universo: uma que, íntima dele, se perde e precisa acordar para defendê-lo; e outra que, desbravando seus caminhos e elementos, começa a se identificar e a se sentir impelida a também participar dessa mesma luta. Conforme o filme vai se desenhando, essa aproximação ideológica de Lauren e Amber vai se tornando uma das chaves da narrativa.

Cryptozoo

A estas pautas somam-se outras questões caras à contracultura, principalmente a questão antibélica e antimilitar. Shaw coloca no centro de seu roteiro, amarrando todas as histórias, um baku-youkai, ser adorado por Lauren desde sua infância, pois a fazia dormir já que tem a habilidade de devorar pesadelos. Se ela quer protegê-lo, os militares querem capturá-lo a qualquer custo, pois enxergam na criatura a única maneira de alienar a população e acabar com qualquer resistência. “Sem sonhos não há futuro”. 

Tudo é tratado de forma sarcástica, com um humor debochado. Em suas várias criaturas, algumas com mais tempo de tela, outras com participações pontuais, traz sentimentos mais carregados, mas sempre pontuados por essa ironia, como a górgona deprimida Phoebe. A animação, de certa maneira, reforça o sentimento de graça na desgraça e é tão visualmente estonteante que é impossível não se entregar ao filme. Samborski não está só querendo criar uma explosão visual a la anos 1960, ela quer trazer tudo isso para dentro da toca do coelho de Alice, a estrada de tijolos amarelos de Dorothy, o túnel abandonado de Chihiro e de tantos outros lugares do universo fantástico.

Cryptozoo é uma viagem fantástica por um universo de seres fantásticos, mas fala só daquilo que é humano, e do pior do humano: da mesquinharia dos capitalistas ao egoísmo daquela que já foi beneficiada um dia; da ânsia de poder à maldade pura e simples. Fala também de redenção e de um mundo constituído por diferentes que podem se unir.

Um grande momento
Rompendo com a mãe superprotetora

[Sundance Film Festival 2021]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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