Uma criança entra na sala de aula, encara a autoridade diante dela e se recusa a obedecer. Em Meio-Dia, Helena Solberg transforma um gesto simples em uma das mais contundente alegorias políticas produzidas pelo cinema brasileiro durante a ditadura. Realizado apenas dois anos após o AI-5, o curta transforma crianças em manifestantes, rebeldes e líderes políticos; e substitui militares por professores. Ao trocar os atores sociais e deslocar o conflito para o universo infantil, expõe os mecanismos de poder que estruturavam a vida coletiva.
Naquela rebelião escolar, um grupo de alunos desafia a autoridade do professor e acaba por transformar a sala de aula em território de insurreição. Longe do realismo psicológico, o que interessa a Solberg é o comportamento das crianças enquanto coletividade, fucionando como figuras políticas, corpos que representam uma micro-sociedade em confronto com a estrutura disciplinadora. Meio-Dia dialoga com o espírito insurrecional do fim dos anos 1960 e início dos anos 1970, e retoma uma tradição cinematográfica de rebeldia infantil presente em obras como Zero de Conduta, de Jean Vigo, e outras que vieram depois desta. A singularidade, porém, persiste no curta que, longe de uma tradição onde crianças representam a inocência ameaçada pelo mundo adulto, utiliza os pequenos para imaginar a revolta.
A escolha dá ao conflito uma dimensão ao mesmo tempo lúdica e ameaçadora, por outro lado, transforma a sala de aula em miniatura do país. As crianças brincam de revolução e a revolução encenada tem consequências concretas. A ruptura da ordem escolar se transforma em metáfora de uma sociedade que também começa a questionar os próprios mecanismos de autoridade. É impossível analisar a obra sem pensar no contexto histórico em que ela está inserida. Meio-Dia foi filmado em um dos momentos mais violentos da repressão militar, quando as possibilidades de crítica direta se encontravam limitadas pela censura. A alegoria não aparece, então, como escolha puramente estética, passa a ser uma estratégia de existência.
Helena alterna evidência e sutileza, indo além de correspondências fáceis e provocando o espectador. O professor não é simplesmente um militar, assim como os alunos não são apenas a oposição política. O curta opera de forma mais complexa na busca pela própria lógica da autoridade. Quem tem o direito de falar? Quem determina as regras? Quem pode punir? Quem deve obedecer? Quando essas questões se deslocam para o universo escolar, a estrutura se revela. A repressão deixa de ser um fenômeno excepcional e passa a ser compreendida como parte de uma rede cotidiana de relações de poder.
Outro ponto a ser considerado são os próprios personagens. Mesmo que menos, ainda hoje as crianças ocupam uma posição de subordinação dentro da organização social. São sujeitos cuja voz costuma ser mediada, corrigida ou silenciada pelos adultos e que, aqui, têm o papel de condutores da revolta, numa inversão radical das hierarquias. A ruptura política nasce daqueles que, em teoria, possuem menos poder. A forma do curta reforça essa dimensão insurgente tão em voga naquele momento e Meio-Dia incorpora o espírito de 1968. Ao experimentar caminhos narrativos, o filme abandona propositalmente a estabilidade, se aproximando de uma lógica de confronto permanente.
A rebeldia está na organização do espaço, na movimentação dos corpos e na relação entre ordem e desordem que estrutura cada sequência. A música “É Proibido Proibir”, de Caetano Veloso, chega ampliando o sentimento, funcionando como uma ponte entre a revolta encenada e as tensões concretas daquele momento. Meio-Dia, sem buscar uma utopia ou apresentar um programa político, registra o instante da ruptura, o momento em que a obediência deixa de ser uma opção. Ao colocar crianças no centro, Solberg cria a imagem – ao mesmo tempo simples e perturbadora – de uma sociedade em que os que precisam aprender as regras resolvem, de repente, questioná-las.
Um grande momento
O pau


