Crítica | TV e VoD

Meu Pai

Ponte de artifícios para a excelência

(The Father, GBR, FRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Florian Zeller
  • Roteiro: Christopher Hampton, Florian Zeller
  • Elenco: Anthony Hopkins, Olivia Colman, Mark Gatiss, Olivia Williams, Imogen Poots, Rufus Sewell, Ayesha Dharker
  • Duração: 97 minutos

2020 foi prodigioso pra adaptações de peças teatrais, muitas delas consagradas em premiações, tais como Uma Noite em Miami… e A Voz Suprema do Blues, mas coube a Florian Zeller o posto de conseguir encapsular tão bem uma experiência cinematográfica, compondo essencialmente um filme da maneira mais tradicional possível da acepção do termo, quanto não perder sua estrutura-gênese sem camuflar que se trata de um outro veículo, ao explorar de maneira tão assombrosa as possibilidades do cinema em Meu Pai, descortinando a experiência fílmica com os recursos que só o próprio cinema poderia conceder, a um texto, a uma roupagem de dramaturgia.

Dito isso, a adaptação de Zeller para seu próprio texto já amplamente premiado (inclusive no Brasil) é prodigiosa em algo muito sutil e tão necessário ao cinema, que faltarão a outras obras recentes, como Deus da Carnificina, que nunca se inteirava do seu potencial cênico por conta das percepções que o próprio material original já suscitava – de textura observacional para cada um de seus integrantes, a montagem ali soava interruptiva das sensações provocadas no público, interagindo negativamente no cerne da obra. O autor tornado cineasta, diferente da relação que John Patrick Shanley estabelece em seu Dúvida, não reverencia o próprio trabalho, mas o expande e complexifica.

Meu Pai

A argamassa de sua espinha dorsal é uma intrincada relação do Homem com sua história, e o que fazer quando a mesma lhe escapa através da força do tempo, arrancada sem concessões de suas mãos. Com os recursos do teatro, essa mesma reflexão intrínseca e milenar do ser humano têm uma disposição para mesmerizar espectadores que essa outra fatia da arte é capaz; o que pode ser resolvido com certos mecanismos em uma vertente, aqui se disponibiliza através de outras, especificamente os trabalhos reconhecidamente notados de Yorgos Lamprinos, montador, e Peter Francis e Cathy Featherstone, designer de produção e decoradora de set.

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Em um trabalho conjunto (pois somente a comunicação ampla entre direção, roteiro, montagem e designers), raras vezes viu-se no cinema recente uma conexão tão complexa entre áreas como aqui ou em Estou Pensando em Acabar com Tudo, onde o desenvolvimento do tempo enquanto cruel redefinidora de novas perspectivas da existência é tão fortemente representada de maneira gráfica por conceitos que, a princípio, estão descritas no papel. Com Zeller no comando, o filme parece assegurar que essa representação sobre a implacabilidade do tempo não esteja palpável através somente da representação textual, mas invada todas as tessituras da construção imagética, incorporando em seu grafismo um preciosismo reflexivo a respeito da memória. Cores e objetos estão plenamente em conexão com a disrupção do estado das coisas, e a ordem dos eventos, seu ritmo avassalador, sua sucessão de possibilidades sempre na tarefa de aturdir, traduzem um conjunto de ideias que o filme se encampa de fornecer, dentro e fora da tela.

Em uma fração de segundos, o filme insere espectador e personagens na mesma esfera de agentes causadores e telas em branco, conectando atores e público a sensações afins. É um filme de estranheza propositada e buscada, que se justifica na relação de artifício que temos com a arte tanto quanto com a passagem — do tempo, da memória, da vida. Se no contexto genérico da existência o tempo nos escapa de maneira gradual e o filme reflete sobre esse padrão de questões, a arte também tem o poder de nos encantar, mesmerizar e se fundir à nossa percepção de maneira diversas, mas sempre repleta de complexidade e subjetividade; essa é a base de uma análise superficial sobre o universo que compreende o filme.

Não atrapalha em nada que sejamos apresentados a esse universo por um elenco tão em forma, que vão desde a precisão de Mark Gatiss e Imogen Poots até a dupla de Olivias, Colman e Williams, ambas com dificílimo trabalho de elaborar base dramática para um esteio tão intrincado, as relações que estabelecemos com o que nos é caro e precisa ser resgatado. Enquanto a primeira, já vencedora do Oscar por A Favorita, representa um aparente porto seguro narrativo onde tantos nós quanto o protagonista pode confiar, que sugere sempre compreensão e cumplicidade, a segunda, que acumulou prêmios por O Escritor Fantasma, está em constante mutação narrativa, travestindo na pele os dilemas de um subconsciente de maneira muito distinta.

Meu Pai

Mas é Anthony Hopkins, em seu corpo e com sua idade, quem arregimenta as fagulhas mais pertinentes de Meu Pai, que tem no seu mergulho o campo que conecta todas as pulsões do filme. Se montagem, roteiro, direção, trilha sonora (um acerto de Ludovico Einaudi, o homem por trás também de Nomadland), a hipnótica direção de arte e a fotografia produzem sensações indescritíveis à obra é porque têm à sua disposição a consciência e o gigantismo do ator, que empreende um tour de force daqueles inesquecíveis, acionando um sem número de botões em seu personagem e promovendo no espectador uma gama de sensações (angústia, medo, empatia, carência, assombro etc) que não apenas os maiores são capazes – estamos falando dos Maiores em seus Maiores Momentos.

Com um desempenho tão notável em mãos, Florian Zeller podia se dar ao luxo de empunhar suas credenciais sem tanta ênfase; não é sua escolha. O que faz de Meu Pai o grande filme que é, é compreender a grandiosidade de cada aspecto, incluindo não ter medo de se situar no limiar do artificialismo, uma escolha tão arriscada para um projeto que necessitaria da conjugação empática do espectador em seu entorno. O risco dá certo porque lhe sobra destemor em investigar o Cinema sem invalidar as origens de sua obra, não subjugá-las ou rechaçá-las — tão vivo que é por abraçar fortemente a fantasia sem expulsar da aritmética o envolvimento emocional, ou seja, compreender seu tema e transmutá-lo em matéria fílmica das mais arrebatadoras.

Um grande momento
Muitos – os tapas no rosto; a segunda chegada de Laura; o jantar ad eternum; “eu quero a minha mãe”… sobram grandes momentos.

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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