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Turma da Mônica Jovem: Reflexos do Medo

Prova de amizade

(Turma da Mônica Jovem: Reflexos do Medo , BRA, 2024)
Nota  
  • Gênero: Aventura
  • Direção: Maurício Eça
  • Roteiro: Regina Negrini, Sabrina Garcia, Rodrigo Goulart
  • Elenco: Sophia Valverde, Xande Valois, Théo Salomão, Bianca Paiva, Carol Roberto, Mateus Solano, Giovanna Chaves, Yuma Ono, Eliana Fonseca, Carol Amaral, Rodrigo Fernandes, Maria Bopp, Julia Rabelo
  • Duração: 85 minutos

Como muitos brasileiros, eu também aprendi a ler através dos quadrinhos de Maurício de Sousa. Foi uma infância regada a Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali e coadjuvantes, quase criando em mim uma identidade particular dentro daquele universo da Rua do Limoeiro. Infelizmente eu já era adulto quando a Maurício de Sousa Produções começou a bancar as aventuras da turminha na adolescência, e diante disso, acabo chegando cru em Turma da Mônica Jovem: Reflexos do Medo. Ou tendo a mesma certeza de quando me deparo com produtos em larga escala de qualquer parte do mundo, seja Brasil, República Tcheca ou Macedonia do Norte: quantas concessões são feitas para que um produto chegue até a maior quantidade de pessoas, e as agrade em sua maioria? 

Tenho a impressão de que existe uma fórmula que consiste em conseguir acessar a maior quantidade possível de não-restrições a um público amplo. Isso está em franquias da Marvel, em séries como Velozes e Furiosos, nos desenhos da Disney, e em tantos produtos. A síntese dessa ideia acaba por transformar a experiência cinematográfica em algo parecido com um teste de supermercado; o que importa é o consumo do produto. Essa é a sensação ao assistir Turma da Mônica Jovem: Reflexos do Medo, que somos cobaias de um estudo onde todos saem ganhando. Menos a fruição natural das coisas, já que não há como pedir naturalismo de algo fabular. O problema é que alguns títulos fazem essa pesquisa de mercado parecer mais espontânea que outros; aqui, o resultado é mediano.

No entanto, existe uma discussão sobre assumir a própria identidade e avançar sobre a imagem, principalmente a que imaginam sobre você. A adolescência é um período de descobertas, e o momento onde tudo em nós muda da maneira mais radical possível. Esse é o contexto ideal para falar sobre essas questões, que infelizmente estão em excesso de entrelinhas, lembrando que estamos falando de uma produção de grande porte, feita para um público da mesma idade que seus personagens. Ainda que venha reclamando nos últimos textos sobre a necessidade de confiar no julgamento e na percepção do espectador, Turma da Mônica Jovem: Reflexos do Medo perde a oportunidade de ir mais profundamente em suas questões, que dialogam diretamente com o público alvo. Isso não significa que os temas não estejam à disposição. 

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São personagens que estão se reinterpretando, para voltar a se reconhecer. Isso é muito interessante a priori, porque o público final não está interessado, mas Turma da Mônica Jovem: Reflexos do Medo não é continuação de Turma da Mônica: Lições. Pelo contrário, trata-se de um produto concebido, desenvolvido, explorado e expurgado por pessoas que nada tiveram a ver com as produções de Daniel Rezende. Aqui, temos o operário padrão Maurício Eça (o homem por trás da trilogia A Menina que Matou os Pais), que está absolutamente inserido em dois contextos que já lidou, o suspense e o universo infanto-juvenil. Seu esforço é evolutivo, e mesmo que suas estratégias não resultem em trabalho autoral, o filme tentar mostrar que é também uma forma do espectador se reencontrar no universo expandido, é levar para ele também questões que são intrínsecas a esse admirável mundo novo. 

Acima de tudo, existem ao menos duas coisas na produção que são altamente louváveis e precisam ser realçadas, independente de méritos de outras ordens. A vontade vinda das entranhas de expandir esse material e transformar o que vemos em uma situação seriada, ao meu ver, não é apenas corajoso, como absolutamente salutar para o nosso cinema. Esse é um código que está impresso de maneira implícita no desfecho do filme, mas que passeia pelos nossos olhos por toda sua extensão. É uma forma de prestigiar um público que quer e precisa desse carinho, que é chamá-lo para a expansão de uma narrativa, como tão bem fazem os produtos internacionais, do qual Turma da Mônica Jovem: Reflexos do Medo deseja avidamente adentrar – e não há nenhum problema nisso. 

O outro dado é algo que já vinha sendo desenvolvido nos longas anteriores e, mesmo com a produção independente a eles, se procura e mantém aqui. O sentido de unidade que os atores consegue entre si em Turma da Mônica Jovem: Reflexos do Medo não tem como forjar mesmo. O elenco reproduzi o que é necessário em cena, que é a crença daquela amizade que agora atinge um novo período, e também um patamar mais avançado de determinação para o futuro. Especialmente Théo Salomão constrói um Cascão adorável, e Xande Valois é um ator muito experiente; Sophia Valverde, Bianca Paiva e Carol Roberto não ficam atrás. O elenco adulto interessa menos, e Mateus Solano está livre, leve e solto além do demais, quase incômodo. Mas a turminha mais famosa da Rua do Limoeiro nos faz querer retornar ao universo, assim que ele for reaberto. E será. 

Um grande momento

A emoção de Cebola

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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