Crítica | Cinema

A Boa Esposa

Da alienação à consciência

(La bonne épouse, FRA, BEL, 2020)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Martin Provost
  • Roteiro: Martin Provost, Séverine Werba
  • Elenco: Juliette Binoche, Yolande Moreau, Noémie Lvovsky, Edouard Baer, François Berléand, Marie Zabukovec, Anamaria Vartolomei, Lily Taieb, Pauline Briand, Armelle
  • Duração: 109 minutos

“O enxoval senhoritas, é o seu passaporte para o mundo. Uma mulher sem enxoval é uma mulher sem futuro”

Essa frase é saída diretamente da boca de uma personagem arcaica, datada do século 18, não parece? Mas não. Ela é do século 20, mais exatamente do ano de 1967. Tudo bem que ela é proferida por uma freira misândrica e belicosa que instrui moças a serem as melhores servidoras do lar em A Boa Esposa.

A freira em questão é a hilária Marie-Thérèse, vivida por Noémie Lvovsky, e que junto com Yolande Moreau (a sonhadora Gilberto), duas atrizes e talentosas comediantes que, figurinhas tarimbadas no Festival Varilux — onde o filme fez sua estreia brasileira, em dezembro — são pontos firmes, que permitem que a estrela Juliette Binoche mostre seu repertório cômico como a contrita Paulette ou “Popô”. Juntas, elas são o Titanic tentando evitar o iceberg.

A Boa Esposa

As três são a alma de A Boa Esposa. Construído como um filme à beira de 68 e da revolução sexual, sobre mulheres à frente de uma escola para formar excelentes “belas, recatadas e do lar” que se veem às voltas com a eminente falência do lugar após a morte do marido de Popô.

O filme de Martin Provost dá uma guinada a partir do momento em que a personagem de Binoche precisa aprender a dirigir um automóvel, conduzir as finanças e, pela primeira vez, tomar decisões sobre a própria vida — um florescimento bonito, como o que outra personagem feita por ela vive em Quem Você Pensou Que Eu Sou.

O roteiro, escrito em colaboração por Provost e Séverine Werba, inclui muitas tiradas espirituosas e profundamente conectadas com o feminismo contemporâneo. Nele, quatro meninas se sobressaem às restantes, com dramas que se equilibram com os das mulheres mais velhas. Elas descobrem o sexo, o amor e também o desespero. A Boa Esposa jamais perde de vista o tom espirituoso mas não abre mão da crítica ao sexismo e à opressão do patriarcado. A narrativa progride naturalmente, mostrando como as pequenas rebeldias das jovens logo deixam de ser punidas e são abraçadas especialmente por Popô.

“Cama e comida não são pagamento por trabalho mas sim exploração!” Paulette fala para Gilberte, que, sua cunhada, dava aulas na escola sem receber salário. O arco da personagem de Binoche abarca seus traumas, demonstrando como a personagem segue crenças determinantes, ou seja, como acredita que precisa ser perfeita, impecável e exemplar para seguir com sua missão de formar mulheres servis.

Porém, A Boa Esposa ilustra bem, especialmente no segundo ato até o clímax da história, como vestir uma calça, não se sentir adequada e depois botar como não só a bunda nela fica bonita como é uma roupa que a permite ser mais liberada nos movimentos e se sentir protegida. É uma metáfora importante para a mudança de Paulette e a conclusão da história.

O espírito da época e o panorama da transformações sociais e políticas estão no subtexto de A Boa Esposa, como a citação à Sociedade das Jovens Donas de Casa da França, que tem como patrona a primeira-dama Yvonne DeGaule, o fechamento da universidade de Nanterre nos arredores de Paris e a luta dos estudantes, logo abarcada por outras categorias, contra o conservadorismo vigente.

“Levantem-se acordem e juntem-se a nós”

Binoche, apartada do seu corriqueiro sex appeal, tem tanta química com Noémie e Yolande quanto com Édouard Baer (o gerente de banco Grunvald), com quem rola pelos campos até entender que A Boa Esposa é sobretudo livre.

No mundo da escola, onde as “fadas secretas e seus segredos domésticos” alimentam, agora sem restrições, o lúdico e libertário das aulas de Gilberte — que tem um arco bonito de amor próprio com o vínculo com a cunhada ainda mais fortalecido afinal, o irmão as deixou endividadas e abandonadas — e a loucura de Marie-Thérèse (dona das melhores frases, pérolas como “Anarquista! Não pode ensinar o padre a rezar a missa”) que é aceita e perdoada.

“Para nos, a pílula. Porque escolher?”

A Escola deixa de ser a busca pela perfeição da doméstica e após as ranhuras provocadas pela aluna que foge para transar, pela que tenta se matar e pelas duas que se apaixonam e tem planos de fugir juntas, vira um símbolo com direito a número musical (que não deve nada a abertura de La La Land), do acolhimento e do companheirismo feminino.

Um grande momento
A receita do strudel

Fotos: divulgação

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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