Crítica | Festival

Catch the Fair One

Você não pode me segurar

(Catch the Fair One, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Josef Kubota Wladyka
  • Roteiro: Josef Kubota Wladyka, Kali Reis
  • Elenco: Kali Reis, Kevin Dunn, Lisa Emery, Michael Drayer, Daniel Henshall, Kimberly Guerrero, Jonathan Kowalsky, Tiffany Chu, Gerald Webb, Isabelle Chester
  • Duração: 85 minutos

No universo dos não atores que se aventuram em fazer um filme, há aqueles que escolhem um lugar um pouco mais “seguro” para estar: viver uma realidade que é a sua, algo que conhece com mais propriedade. Foi o que fez a pugilista Kali Reis. Assim como ela, Kaylee ou K.O., é uma ex-boxeadora meio nativa e meio imigrante que luta contra uma rede de sequestro e prostituição de jovens indígenas. Mais do que ter consciência do personagem, há uma relevância social e uma necessidade de trazer uma pauta pouco debatida nos Estados Unidos. Também roteirista de Catch the Fair One, Reis é integrante do Missing and Murdered Indigenous Women and Girls (MMWIG) e tem um programa para ensinar mulheres a se defenderem fisicamente de agressores.

No filme, Kaylee é uma mulher cheia de traumas, com vários problemas pessoais e familiares, principalmente com a mãe. Sua irmã mais nova fora sequestrada e está desaparecida há algum tempo. Com a ajuda de amigos, ela resolve se infiltrar para descobrir o que aconteceu e passa por todo tipo de violência, respondendo na mesma moeda. É um filme que pega pela desilusão das imagens, pelo asco que as sequência provocam e isso minimiza, ainda que haja uma tentativa de explicação, até mesmo a pouca credibilidade da inserção de alguém como a protagonista entre as outras meninas, todas muito jovens.

Dirigido por Josef Kubota Wladyka talvez com uma mão pesada demais, Catch the Fair One alterna entre a ação e o sombrio. É como se não houvesse felicidade em nenhum lugar para onde se olhe, sensação reforçada a todo momento pela trilha de Nathan Halpern, compositor dos igualmente opressivos Devorar, In The Same Breath e Domando o Destino, e pela fotografia escura de Ross Giardina. Cores só aparecem em delírio e se há alguma luz, ainda que pouca, é quando a cena é dos vilões. Essa manipulação do asco é muito precisa e faz muito sentido, mesmo que extremamente pessimista.

Apoie o Cenas

O filme aborda o papel histórico de objeto das mulheres, principalmente aquelas que estão em situação de minoria. Meninas são sequestradas por serem ingênuas, são abusadas quando estão em situação de vulnerabilidade por estarem dopadas, são levadas a abatedouros para serem mortas, são vendidas como mercadorias, são tratadas como procriadoras que não tem direito de se manifestar. Ali estão cada uma delas, com maior ou menor tempo de tela e é possível perceber a realidade em todas as situações.

Os homens presentes no longa também são identificáveis e Kaylee surge como uma espécie de vingadora em uma realidade alternativa, uma pequena fantasia num mundo corroído pelo caos patriarcal que não tem solução. Esse mundo sombrio que não deixará de existir além dela e Catch the Fair One não só sabe disso, como deixa evidente com seu final. “Você nunca mais a verá de novo”, muitas mais não serão vistas de novo. Uns irão e outros virão. Muitos ainda estão aí e ficarão.

Quando a cor ressurge, no delírio, ela traz a verdade extratela e daí vem a esperança de mudança. A solução pela resistência com ações como as que Reis ou o MMWIG promovem aqui fora, de prevenção e combate.

Um grande momento
Na jugular

[2021 Bentonville Film Festival]

Curte as coberturas do Cenas? Apoie o site!

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
Botão Voltar ao topo